MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

O informático, o geek e o escritor.

«“Podes, por favor, apertar mais o pulso esquerdo?” “É tão bom que peças isso”. E ajustámos o pulso esquerdo também para o limite mínimo das algemas.

Agora sinto o peso delas e percebo que tenho os movimentos circunscritos. E é tão bom… Estar presa sabe a liberdade.»


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Era a minha primeira festa BDSM. Conhecia algumas das pessoas que lá estariam, mas a grande maioria era-me desconhecida. Conhecia o informático grego do último munch. Tinha gostado muito de falar com ele e de ouvir a fascinante história da família dele, dos avós comunistas que fugiram para outro país, para não serem executados. O escritor escocês doutorado em Cambridge tinha-me visto no último munch, mas não tinhamos falado. Sei que ele tinha manifestado interesse em mim, perguntou ao guitarrista de metal sueco (com quem eu passei grande parte dessa noite desse munch, e que infelizmente não foi à festa – contava vê-lo) quem eu era e qual a minha orientação. Não conhecia o geek austríaco. Quando eu digo geek estou mesmo a referir-me a um rapaz de 24 anos, magrinho, com óculos, todo vestido de preto, que conhece as séries todas de sci-fi e fantasia e mangas e jogos e livros e tudo o que há de geekices. E estuda qualquer coisa de IT (o meu desinteresse e ignorância na área nunca me permitem decorar estas coisas).

Conversei com o geek no início, mas houve algum choque com os ackward social skills dele (e meus). Falámos de kinky, das coisas triviais da vida (onde moramos, se temos parceira/o(s), o que fazemos, o que gostamos de fazer) e disse-lhe que eu sou geek, mas um tipo diferente do dele. E que tenho um fraquinho por geeks como ele. Pensei que ele não me tivesse achado piada, mas mais tarde percebi que eram mesmo os seus ackward social skills. De seguida conversei bastante com o grego, que fala muito pausamente. Eventualmente chegou o escritor escocês e começou a conversar com o grego, porque este lhe perguntou como se dizia uma palavra em inglês. Nesta altura o geek voltou a aproximar-se de mim e acabámos por ficar, o grupo de quatro, a conversar durante a noite toda, sobre as mais variadas coisas.

Houve uma palestra sobre poliamor que foi dos maiores conjuntos de disparates que eu alguma vez ouvi sobre o tema. Sim, eventualmente pior do que antropólogos e sexólogos preconceituosos portugueses. Um discurso homofóbico e sexista que justificava o “poliamor” (aspas por não achar que ele estivesse a falar de poliamor, mas de relações sexuais livres) com base num discurso biológico evolucionista e eugenista! Pelo meio, ainda disse coisas como que hoje em dia os homens têm pénis e testículos mais pequenos por causa da monogamia… No grupo de quatro, só o grego não se mostrou minimamente incomodado com o que era dito pelo palestrante. Eu, o geek e o escritor trocámos ocasionalmente algumas palavras de desagrado, de surpresa, de discordância com o que era dito.

No final, o escritor escocês interveio, com uma tónica pessimista, que o poliamor era terreno privilegiado para comportamentos de culto e situações de abuso. Referiu o caso da ex-mulher dele, que tinha sido vítima de violência física e psicológica durante anos, numa relação poliamorosa abusiva. Eu queria responder e tinha a mão no ar desde que a palestra terminou, mas o fetichista, de quem falarei mais tarde, aparentemente tinha levantado a mão primeiro e interveio, dizendo que a culpa do abuso não é o poliamor, que ele é poliamoroso e que se formos à base da palavra a ideia é muito simples. Pareceu-me que ele também não estava a ir na direcção certa e, após interrupção para tradução, pedi para me deixarem falar. Disse que achei que o discurso do orador bom nalguns pontos (não especifiquei quais – começar pelo elogio, já interiorizei o método académico), mas que achei que faltavam algumas coisas simples: que o discurso tinha sido sexista e homofóbico (a que a sala reagiu animadamente e de que o palestrante tentou defender-se imediatamente, mas não deixei), pois, entre outros motivos, alguns dos argumentos que ele usava (os poucos com que eu concordava), são aplicáveis na perfeição à não heterossexualidade. Mas disse mais, que achei que o discurso não foi necessariamente sobre poliamor, mas vagamente sobre não-monogamias consensuais, o que é um campo bastante alargado de possibilidades relacionais, de que o poliamor é apenas uma delas. Que o discurso foi demasiado centrado na sexualidade e, quanto a mim, não é disso que se trata. Remeti para a intervenção anterior do fetichista, dizendo que estamos a falar de amor, de criar relações sentimentais que podem ou não ser românticas e que podem ou não ser sexuais, com mais do que uma pessoa, que estamos a falar de criar laços, com consentimento de todas as pessoas envolvidas. E que é importante que fique claro que não é sobre sexo, que não é sobre liberdade para ter relações sexuais com várias pessoas, que pode não haver sexo envolvido. A sala estava já em alvoroço, o palestrante queria defender-se, apesar de eu estar a dizer que não tinha que se defender de nada que eu não o estava a atacar, mas a acrescentar informação. Mas ainda consegui acrescentar, em resposta ao escritor, que a monogamia é tão ou mais do que o poliamor, o cenário ideal para situações de abuso e violência, a que algumas pessoas na sala reagiram ruidosamente manifestando acordo. A conversa ainda continuou, mas não houve muito mais contributos interessantes, tirando a intervenção do geek, que acrescentou que recusava a interpretação evolucionista, e lembrou que estamos inseridas/os num sistema monogâmico, com séculos e séculos de estabelecimento e cristalização, de várias formas. Não pôde continuar porque a sala continuava algo ruidosa, e havia pessoas que queriam que aquilo acabasse para poderem brincar (a comunicação inicial foi demasiado longa), outras que queriam ir embora, etc.

Eu, o geek, o grego, o escritor e o fetichista ainda continuamos a conversar um pouco mais sobre o assunto até que entrámos nas críticas à organização da festa, à falta de segurança (o “instrutor” de shibari trazia uma faca xpto, não kinky, mas de coisas más, que o escritor reconheceu, no bolso de trás – o que é inadmissível), à má qualidade de grande parte dos brinquedos disponíveis. O escritor escocês diz que por isso trazia com ele algumas coisas, muito simples, uma calçadeira (don´t ask me) e umas algemas. O escritor escocês tinha umas algemas com ele.

Peguei nelas. Belas, simples, frias, o metal a reluzir e reflectir as luzes vermelhas do tecto. Não resisti: “Quero experimentá-las. Importas-te de me prender? Por favor?” Ele manifestou desejo imediatamente, mas seguido de alguma hesitação: “Eu não estou totalmente sóbrio, portanto deixa-me ver se estou capaz de as abrir e fechar antes de te prender. Algum de vocês os dois quer ficar com a chave? [não manifestaram vontade] Ok, mas por favor sintam-se à vontade para ma tirar se virem que eu estou com dificuldades ou se não vos parecer bem.” Estava atenta a todos os seus movimentos e vi que abriu e fechou as algemas com cuidado. Fez-me sentir segura. E saber que o grego e o geek estariam ali o tempo todo a tomar conta de mim deu-me ainda mais confiança. O escritor abriu então as algemas de um dos lados, aproximou-as dos meus pulsos e perguntou-me: “Queres colocar aqui o teu pulso?” “Com prazer”, e coloquei o meu pulso esquerdo. Ele ajustou as algemas lenta e cuidadosamente enquanto me ia sempre perguntando “está bem assim ou aperto mais?” Respondia sempre “mais” até ele dizer “acho que está bem assim”. Pulso direito, mesma pergunta “queres colocar aqui o teu outro pulso”? Desta vez não apertou com a mesma lentidão por sabermos, eu e ele, que seria numa das últimas posições. Portanto, diminuiu a velocidade quando se aproximava do fim: “assim ou mais apertado?” “mais” “mais” “mais”. Chegámos ao limite das algemas. Elas não me estão justas. (Tenhos os pulsos e os tornozelos muito finos; já tive muitos complexos também por isso, por achá-los desproporcionais.) “Podes, por favor, apertar mais o pulso esquerdo?” “É tão bom que peças isso”. E ajustámos o pulso esquerdo também para o limite mínimo das algemas.

Agora sinto o peso delas e percebo que tenho os movimentos circunscritos. E é tão bom… Estar presa sabe a liberdade. À liberdade de não ter que usar as mãos desta ou daquela maneira, de não me auto-censurar por ter as mãos numa qualquer posição “feminina”, por não conseguir usar as mãos com confiança, como se o mundo fosse meu e das minhas mãos. Não sei para onde olhar. Tenho receio de olhar directamente para os olhos de qualquer um deles. Sei que naquele momento estou também muito vulnerável e não quero incendiar-me ou entregar-me gratuitamente. Quero apreciar tudo o que estou a sentir.

À minha esquerda está o geek, à direita o grego e à frente o escritor. Estão os três absolutamente concentrados em mim e eu em tudo o que estou a sentir. É como se o resto da sala, todas as outras pessoas, equipamentos e brinquedos não estivessem lá. Até as luzes se apagam e só vejo brilho vindo deles na minha direcção, especialmente de entre o geek e o escritor.

O geek e o escritor perguntam: “how does it feel?” “Wonderful”. O geek diz “ficam-te muito bem”. O escritor diz “estás com um ar tão feliz”. Só consigo sorrir. Fecho os olhos. São pesadas. São tão confortáveis. Sabe tão, tão bem. É inacreditável. Nunca imaginei que me sentisse tão confortável com umas algemas. Nunca pensei sentir-me tão confortável numa festa, em público, com pessoas que não conheço. Sinto aquele triângulo à minha volta, a energia, o olhar de cada um deles, concentrados só em mim.

Não me sinto ali. Sinto-me flutuar num qualquer espaço indescritível, ali para os lados do inconsciente. De vez em quando abro os olhos e sinto-me forte. Estou a confiar naquelas pessoas, sem que me custe nada. E aquelas três pessoas, naquele momento, têm toda a sua atenção em mim e no meu prazer. Quando ocasionalmente olho de relance para eles percebo que estão a ter tanto prazer quanto eu, prazer por me dar prazer, prazer por me ver ter prazer. Não me lembro de ter tanto prazer sem ser tocada. Sorrio tanto…

Abro os olhos e partilho “vocês não sabem o prazer que me está a dar isto. Sentir as algemas e sentir-vos e ver-vos. Estar algemada e ter-vos a olhar para mim algemada é uma sensação indescritível e maravilhosa.” O escritor diz “é um prazer contribuir para o teu bem estar. Conseguimos ver bem que estás a ter muito prazer”; o geek “estás super fofa. Tens os olhos a brincar e um sorriso delicioso”; o grego “é bom ver-te assim”.

O escritor pergunta se quero que me solte “não, ainda não” e questiona “quanto tempo achas que conseguirias estar algemada confortavelmente?” “Eternamente! Não sei, como as algemas não me estão justas [consigo até rodar o pulso] acho que conseguiria estar assim durante horas. Mas não sei mesmo, depende das circunstâncias: do dia, da pessoa que está comigo, do meu humor, etc.” “É bom saber. Queres que te solte agora?” “Não, quero ficar assim mais tempo.”

Gradualmente, sem pressas nem pressões começamos a conversar. Perguntam-me que mais coisas gosto, se há algo que gostaria de experimentar. Respondo que não tenho muita experiência além de shibari, mordidelas,  arranhadelas, e umas leves palmadas, mas que estou disponível e curiosa sobre algumas coisas, por exemplo, quero experimentar que me batam nas costas. A conversa é ocasionalmente interrompida por contemplações, quer eu feche os olhos e mexa as mãos, quer eles foquem o olhar nos meus braços.

O escritor lembra-me novamente: “quando quiseres eu tiro-as” “Obrigada. Quero-as mais tempo, se não te importares.” O geek pergunta “queres experimentar alguma coisa enquanto tens as algemas? Vejo que ainda estás fixada na cadeira…” (uma espécie de cadeira de pregos, com esses tais pregos – não afiados – no assento e nas costas, sobre a qual lhe tinha manifestado vontade) Não digo que sim, porque sinto que não é aquilo que eu quero naquele momento. Fico pensativa. O escritor sugere “disseste que querias experimentar as costas. O que achas de irmos para junto da parede e algum de nós o fazer? Podemos experimentar prender-te à roda ou à cruz.” [artifícios de madeira pregados à parede, a cruz tem uns adereços em couro para prender os pulsos da pessoa sub de cada um dos lados] Pausa. “Sim” “Hesitaste. Tens a certeza que queres?” “Sim.” Vamos para junto da parede, mas acabámos por optar prender as algemas ao tecto. É o grego quem vai buscar uma corrente e uma corda para conseguirem suspender as algemas. O escritor ajuda-o a subir uma cadeira e montar o ponto de suspensão. Pergunto ao geek “Devo tirar a parte de cima e despir as costas?” “Se quiseres, podes, mas não tens de o fazer.” Pergunto o mesmo ao escritor. “Sentes-te à vontade para despir as costas? Lembra-te que isto é uma performance, estamos em público” “Sim, tens razão. Não pensei nisso.” “Vais estar no centro das atenções da sala toda.” “De qualquer forma, tenho as costas decotadas” “Sim, podemos só afastar um pouco a blusa.” “Ok”.

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Pergunto ao escritor “e o que é que vai acontecer exactamente?” “Tens razão, deste consentimento, mas tens de saber pormenores. Depois de suspendermos os braços, acontece o que tu quiseres. Podes escolher um de nós para te bater, podes escolher mais do que um. Já fizeste isto antes?” “Não”. “Então temos que ir devagar para perceber a tua tolerância à dor. Queres usar uma palavra de segurança?” “Não, quando eu não quiser ou não me sentir bem ou qualquer outra coisa, digo-vos.”

O escritor e o grego afastam-se para preparar a melhor forma de me suspender. Pergunto ao geek “estás sóbrio?” “sim, hoje escolhi não beber alcool” “ok, é que ele disse há pouco que não está sóbrio e preciso de saber que alguém me ajudará a controlar a situação se por acaso for preciso.” “Não te preocupes. Estou sóbrio e vou estar a tomar conta de ti.” Eu não estava preocupada, embora devesse. O escritor tinha dito que não estava sóbrio e que evita qualquer tipo de jogo quando bebe. Tinha dito que preferia não ser ele a por-me as algemas por esse mesmo motivo, mas nem o geek nem o grego quiseram fazê-lo. Tenho consciência agora que menosprezei a situação porque ele me parecia absolutamente sóbrio, porque era a pessoa mais preocupada sobre segurança e consentimento em toda a festa, porque tudo até ali me fez confiar nele.

“Queres ficar de frente para o público ou de costas, virada para a parede?”, pergunta-me o escritor. “De costas.” “Posso?” “Sim”. Ele vira-me e percorre a parte de trás do meu corpo com as mãos, de cima para baixo. Não pára no fundo das costas, desce até às nádegas onde desacelera e inspira profundamente. Digo afirmativamete: “Não. Não hoje, não aqui. Quero as costas.” “Desculpa.” E afasta-se.

O grego suspende-me os braços, prendendo as algemas com uma corda que desce do ponto de suspensão. Acertamos a altura duas vezes. Verificamos que está tudo bem, que as algemas estão seguras, que estou confortável, que não me vão doer os braços. Um palerma qualquer (que nem reparei quem) aproxima-se e toca-me nas algemas sem pedir licença, levantando-as. “Isto devia estar mais alto, devias estar com os braços esticados.” “Não, estou confortável assim. Quero estar assim.” Não sei se pela minha reacção (ainda assim amigável demais, devia ter-lhe dito “sai daqui”, “não me pediste autorização para me tocar” ou outra coisa semelhante), se pela presença dos três homens com quem estou, que provavelmente sentiram o seu espaço ameaçado e aproximaram-me mais de mim, o palerma afastou-se.

O escritor pergunta ao geek se alguma vez o fez, o geek diz que nas costas nunca experimentou bater. O escritor afasta a minha blusa e indica as melhores zonas, diz que não se deve bater passando os ombros, nem na zona central e pescoço e que abaixo das omoplatas também é para evitar. Enquanto explica toca-me muito gentilmente, o que me é agradável. “Quem queres que comece?” Digo que tanto faz, não tenho preferência, desde que a pessoa seja cautelosa. Ele pergunta aos outros “Algum de vós quer começar?” O grego é tímido e nunca diria que quer começar. O geek diria noutra situação, mas provavelmente ficou inseguro depois de ouvir a explicação de segurança do escritor. É então o escritor quem começa. “Se te magoar, se quiseres que pare, diz.” “Sim.” “Posso começar?” “Sim.” Não estou minimamente nervosa. Confio nos três e particularmente no escritor, a pessoa mais consciente sobre consentimento e segurança ali dentro. Não sinto que haja mais gente na sala, de tal forma estou concentrada no meu corpo e naquelas três pessoas que estão comigo. Ele, o escritor, acaricia as minhas costas lentamente, sabe tão bem… Estou sexualmente excitada. Experimentar as algemas e agora estar ali pronta a receber ainda mais daquelas pessoas, a dar algo àquelas pessoas, ansiosa por sentir o que se segue, curiosa, é das sensações mais excitantes que já experimentei.

Ele pergunta: “Posso começar?” “Sim.” Começa com umas palmadas suaves. Pergunta-me se estou bem e eu respondo “sim, podes aumentar de intensidade. Eu digo-te se/quando for demais”. Ele deixa então de me perguntar e gradualmente aumenta de intensidade, distribuindo equitativamente frequência e intensidade pelos dois lados das costas. Sabe bem. Sabe tão, tão bem. Estou deliciada com tudo o que vou sentindo, e é muito, um largo conjunto e alternância entre vários tipos de sensações, cuja soma é indiscritivelmente prazerosa. Percebo a determinada altura que nos estamos a aproximar do meu limite de tolerância à intensidade e, na pancada seguinte, ganho certeza e digo-lhe “Atingimos o meu limite. Até aqui, aguento, mais do que isto, hoje não.” Ele diz-me “Desculpa, perdi o controlo. Devia ter ido muito mais devagar.” Diz para o geek e para o grego “I´m sorry, guys. She´s all yours”. Afasta-se e percebo que está incomodado, chateado consigo mesmo. Vai para o meu lado, mas mantém-se a uma certa distância. O geek está ao meu lado e pergunta-me “estás bem?” digo “sim”. Começo a sentir as costas quentes. Ele acaricia-me os pulsos e começa a arranhar-me muito delicadamente. Primeiro com uma mão, depois com as duas. Adoro, mas é suave demais. “Podes usar mais força, estou a gostar muito”. Ele usa e percorre os meus braços até aos ombros, volta aos pulsos e repete. Pescoço, mãos. Costas. Começa por me acariciar as costas com a mão inteira, o que sabe mesmo bem com a temperatura altíssima a que estão e a ligeira dor que sinto. Apercebo-me que estou a gemer. O grego e o escritor (que continua um pouco afastado e estranhamente calado e quieto) olham-me a sorrir, deliciados por me ver ter prazer. O geek alterna entre carícias e arranhadelas (que são também carinhosas) e começa a massajar-me as costas lentamente. Quando percebo o que está a fazer fico ainda mais derretida. Procura pontos de tensão e encontra dois. Trabalha-os. Para aliviar o segundo, abraça-me com o braço direito para que eu não me deixe arrastar para a frente. Sinto-me lubrificar. São as melhores massagens que recebi nos últimos dois ou três anos. O escritor e o grego sorriem imenso, suponho que em efeito espelho porque não consigo parar de sorrir e gemer de prazer.

O geek volta a acariciar-me as costas com as mãos e pergunta-me se pode. Digo que sim. As primeiras palmadas são mais fortes do que as primeiras do escritor foram, e na verdade este miúdo, de 1,70m e bastante magro, tem muito mais força do que eu estava à espera. Quando o conheci e ele me disse que era dom, não dei muita importância, mas na última meia hora e especialmente agora, apercebo-me que ele deve ser um dom fantástico e que acho que gostava de ser sub dele. Nunca chega a atingir a intensidade a que o escritor chegou, mas anda perto, e de alguma forma aprecio esta sua continuidade de força. Também ele tem o cuidado de distribuir pelos dois lados das costas. A certa altura pára de me bater e diz: “Muito bom. Prefiro rabos e adorava experimentar o teu, mas tens umas costas muito bonitas e que dão bastante prazer”. Mas ele não se afasta. Pelo contrário, volta a acariciar-me as costas, o pescoço, os braços, as mãos. Acalma-me bastante as costas, que estão, segundo dizem, vermelhas e, isto sinto eu, muito quentes. O grego pergunta-me se me pode tocar. Digo que sim. “O que achas de cócegas?” “Não costumo ter cócegas, só em determinadas circunstâncias”. “Vamos tentar”. Tenta nas axilas, mas não consegue. De facto raramente tenho cócegas e achei logo que não as teria naquele contexto, especialmente depois de duas pessoas me terem batido. “Acho que depois de me terem batido não dá. Talvez antes. Mas podes bater-me, se quiseres”. “Ok, se te magoar diz-me”. O grego não é o melhor batedor do mundo e eu, na minha ingenuidade, nunca achei que isto fosse uma grande ciência. Agora percebo que é. Há que haver um bom uso da mão toda, uma boa distribuição da intensidade por toda a superfície da mão. E ele não o consegue. Ora imprime mais força à zona mais perto do pulso, ora à zona mais acima. Também não bate a 90 graus ou seja, a palmada não é convenientemente distribuida pela superfície a atingir. E esquece-se de distribuir pelos dois lados das costas de forma equitativa. Ou seja, acaba por dar mais palmadas de um lado do que do outro e quando dá dos dois lados elas não têm a mesma intensidade. Não sei se por perceber isto ou se porque voltou a ter vontade, o geek perguntou-me se podia juntar-se e tentaram bater-me os dois de forma sincronizada cada um do seu lado. Não está a resultar muito bem porque o grego usa muito pouca força em relação à do geek. (O grego deve ter 1,85m e é algo encorpado.) Nesta altura já não estou tão concentrada ou deliciada e pergunto “vocês estão a tentar sincronizar as palmadas? É que não estão a conseguir.” O escritor ri-se e diz “gajos, ritmo!” E eu “devo marcar marcar o compasso? [dou uma entrada à jazz] Um, dois, um, dois, três, quatro” Não ajuda. Acho que tanto eu como eles percebemos que a sessão está no fim. O grego pára. O geek continua mais um pouco e acho que inteligentemente, pois é apenas o suficiente para compensar o desiquilíbrio que as costas estavam a ter. Pára e acaricia-me. Os três admiram as minhas costas. “estão com uma cor tão bonita” e tentam descrever-me, recorrendo a vários tipos de rosa, vermelho e salmão, mas têm opiniões divergentes e eu não consigo imaginar. O grego junta-se ao geek e ambos me acariciam. É bom.

Nesta altura, outro palerma que está a cerca de metro e meio de nós (o “instrutor” de shibari) aproxima-se demasiado de mim, invadindo o meu espaço sem autorização ou aviso, como sempre faz, e pergunta-me se quero que me suspenda. Na língua dele, que ele não fala inglês, e é o grego (que é bilingue) quem traduz. Digo “hoje não, depois disto não, obrigada”. Pergunta se quero que me prenda sem suspensão, então, mais tarde. Digo “não sei, acho que hoje não me vai apetecer mais nada”. Ele diz que volta a perguntar-me mais tarde. Reviro os olhos para os meus três doms da noite. Já lhes tinha dito antes que aquela pessoa me deixa desconfortável. Sempre a mesma macheza privilegiada, agir como se o meu corpo (e o de qualquer mulher, que reparei nisso) fosse propriedade pública, perturbar uma “performance” que ainda não tinha acabado. O geek continua a acariciar-me as costas.

Os meus doms perguntam-me se quero que me soltem ou se prefiro ficar mais um pouco ali. Digo que não sei (a invasão do “instrutor” de shibari perturbou-me), mas olho melhor para os meus pulsos, tento perceber o que estou a sentir e peço para me tirarem as cordas das algemas, mas deixar as algemas. O geek pergunta-me como me sinto e se quero comer alguma coisa, se quero beber algo, que é muito importante hidratar-me. Digo que pode ser água e ele vai buscar-me um copo com água enquanto o grego me solta as algemas da corda suspensa. O geek coloca o copo nas minhas mãos algemadas. Bebo e eles comentam “Olha para ti a segurar copo e a beber, que classe, parece que as algemas fazem parte de ti.” Concordo com eles, já não sinto as algemas como algo exterior, mas como uma prótese a que me adaptei perfeitamente.

Depois de eu beber, o escritor diz “acho que podemos tirar as algemas agora, ou queres continuar com elas?” “Sim, vamos tirar”. Ele pega nas chaves e começa a abri-las cuidadosamente, um lado de cada vez. “Vais sentir falta delas”, diz o geek. “Eu sei. Já estou a sentir.”

Estou livre e tento adaptar-me à ausência das algemas. É difícil. Não sei o que fazer com as mãos. Vou sentindo as marcas das algemas e mexendo os pulsos. O geek toca-me nos pulsos e diz “estão subtis, mas lindíssimas”. Acontece mais três ou quatro vezes ao longo do resto da noite (que deve ter durado mais meia hora, quarenta e cinco minutos) o geek acariciar-me as costas. E sabe-me sempre muito bem.

Nalgum momento em que o grego e o geek estão a falar entre si numa língua que me é estranha, o escritor aproxima-se e pede-me desculpa. Que errou, que não devia ter feito nada porque bebeu, que quebrou uma das principais regras. Eu não consigo assimilar muito bem o que ele me está a dizer, porque estou a sentir uma montanha de coisas ao mesmo tempo. Digo-lhe só que não se preocupe, que não senti que tivesse passado os limites e que da próxima vez correrá melhor.

Aproveito este momento de pausa para ir à casa-de-banho e digo-lhe(s) que volto já. Pelo caminho não resisto a acariciar uma gatinha (em pet play) muito querida, que tinha acabado de levar uma sova de cana nas nádegas, por uma dom, noiva de um vanilla, que satisfaz a sua kinkyness sobretudo com outras mulheres, apesar de se identificar como hetero. A gatinha tinha chorado e gritado imenso, o que me fez bastante impressão (e me deu vontade de intervir, mas não o fiz por não conhecer a dinâmica de nenhuma delas), mas mal a performance acabou, a dom esteve a cuidar dela muito carinhosamente e reparei que ela, a gatinha, estava super feliz e tranquila. Ainda assim, senti a necessidade de lhe dar carinho ao passar por ela, agora acompanhada novamente do namorado, que me disse: “Ela adora-te, desde a primeira vez que te viu” em resposta ao esticar das patas dela quando me aproximei e aos miados fofos que ia soltando.

De volta ao caminho para a casa de banho, o fetichista, com quem tinha conversado durante a palestra sobre poliamor e que me pareceu interessante, pede-me permissão para se aproximar. Explica-me que é fetichista, que tem muitos fetiches e um deles é beber urina das pessoas de quem gosta. Diz-me que para ele é uma forma de partilha intensa, de absorção da outra pessoa. Que para ele a urina é algo quase sagrado. Pergunta-me, deixando toda a liberdade e conforto para eu responder que não, se eu quero urinar para dentro de um copo para ele beber. Eu pergunto, antes de responder, “posso ver-te beber ou queres fazê-lo em privado?” Ele diz que gostava muito que eu visse, mas se eu não quiser ver não faz mal. “Ok, volto já”. Entro na casa-de-banho e penso “wow. Vou mesmo fazer isto? Quero fazer isto? Quais são os motivos que me fazem hesitar? Qual é o problema? Nenhum. Urina é estéril. Não representa perigo nenhum de saúde para mim, e à partida não representa para ele. A urina foi e é usada por muitas pessoas como forma de terapia, muita gente entende que é bom para a saúde. Logo, não há problema absolutamente nenhum.” Ainda assim, não enchi o copo, deixei ligeiramente abaixo de meio e fiz o resto para a sanita, pois pensei que preferia ver como é que funcionava e que ele podia não gostar ou sentir-se mal. (Sim, pois, temos sempre medo do que não conhecemos e a repulsa internalizada de tudo o que sai do nosso corpo) Olhei para o copo, cheirei. Estava com uma cor bonita, um amarelo muito suave e, para minha surpresa, não tinha cheiro. Perguntei-me se eu seria capaz de beber. Decidi pensar sobre isso noutra altura e ir levar-lhe o copo. Estava curiosa para ver como seria. Ele perguntou-me “tens alguma coisa para mim?” “Sim” “Obrigada. Podias ter enchido o copo.” Olhou, abanou, cheirou e provou. Fechou os olhos, parecia estar em meditação. E adorou. “É maravilhosa. Podias fazer dinheiro vendendo a tua urina.” Eu estava surpreendentemente tranquila e a gostar muito de o ver beber. Cada vez que bebia fechava os olhos. Bebia muito devagar, saboreava cada centímetro cúbico. Lambia os lábios no fim. Inspirava e expirava calma e profundamente. Quando acabou agradeceu-me imenso. Eu agradeci-lhe também, disse que tinha gostado da experiência. Ele disse “se quiseres voltar a fazê-lo novamente daqui a pouco, ou noutra qualquer ocasião, eu terei muito gosto”. Voltei para junto dos meus três doms que estavam junto da mesa. Servi-me e servi o geek de vinho (decidiu beber para me acompanhar; o escritor e o grego não quiseram beber), um vinho grego doce, que o grego trouxe. Havia um último pãozinho grego, de uma caixa que ele tinha trazido, feitos por ele, o grego. Disse que era para mim. Eu disse que não podia aceitar, foi ele que fez, eu já tinha comido um no início da noite, aquele era para ele. Ele dividiu-o e ficámos com metade cada um.

Eu, o geek e o escritor decidimos ir embora – tomaríamos o mesmo eléctrico. Despedi-me do grego com dois beijos e um abraço. Agradeci a noite e disse que nos tornaríamos a ver. No caminho até à porta, o fetichista que tinha bebido a minha urina deu-me um abraço enorme, agradeceu-me novamente e disse que teria muito gosto em voltar a ver-me.

Pelo caminho, eu, o geek e o escritor, falámos de literatura, de cinema, de idades, da noite. Eu e o geek saimos na mesma paragem, o escritor continuou. Não me lembro como me despedi dele, mas concordámos em manter-nos em contacto. O geek ia apanhar o comboio, despedimo-nos junto à entrada da estação, um dos edifícios mais bonitos da cidade, que fica a 5 minutos de minha casa. Ele disse-me que tinha gostado de me conhecer, que tinha tido imenso prazer, agradeceu-me a noite, e que gostava muito de voltar a estar comigo. Eu disse-lhe que tinha adorado a noite, agradeci-lhe todo o prazer que me proporcionou e que também esperava voltar a vê-lo.

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One comment on “O informático, o geek e o escritor.

  1. Patsy
    17/05/2017

    a5156208C’est exactement pour cela que les graphiques et chiffres publiés par monsieur Berruyer sont très utiles et très appréciables. Et c’est aussi pour ça que cet “article” du nouvel obs n’est bon qu’à… pas grand chose en fait… enfumer le monde peut-être?Les articles d’opinion sont une plaie. Une opinion basée sur des faits, des chiffres et une analyse, passe encore. Mais on ne trouve presque plus que des “opinions non inr&8méeso#f221;.347ae45

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This entry was posted on 06/10/2015 by in PT and tagged , , , .
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