MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

De volta a Budapeste.

«As ruas aqui voltaram a ser “brancas” como eram há um ano atrás. Mas não são como eram há um ano atrás.
Durante o mês de Setembro o parlamento húngaro aprovou leis mais severas para “controlar” xs refugiadxs, reduziu o prazo e apertou as condições para pedidos de asilo, limitando também as possibilidades de recurso.»


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Estou de volta a Budapeste.
Vivo perto da 2ª principal estação de comboios (a seguir a Keleti, a que passou o verão nas notícias). As ruas aqui voltaram a ser “brancas” como eram há um ano atrás. Mas não são como eram há um ano atrás.

Quando saí, em Julho, estas mesmas ruas que percorri hoje tinham pessoas, corajosas, de várias idades e géneros, que viviam ao relento com pouco mais do que umas mochilas e uns sacos. Que estavam de passagem, em busca de formas de sair daqui o mais depressa possível e sem serem apanhadas pelos chuis de Órban. Tinham vida no olhar. Sobreviveram a tanto, e temiam tão pouco, que estavam geralmente bem humoradas, tranquilas, esperançosas. Nunca pediram nada, nunca criaram confusão por nada. Não queriam nada, só que as deixassem passar. Tinham chegado à União Europeia. Agora era só mais um bocadinho até chegar a um dos eldorados de que ouviam falar, que poucxs quereriam ficar na Hungria.

Às vezes, à noite, apareciam umas carrinhas com agentes que xs levavam. Ficavam os seus sacos abandonados, que seriam levados pela recolha de lixo antes de amanhecer. As pessoas (como eu) não faziam nada. Durante o verão a Hungria esteve em todo o lado, por causa do intensificar do fluxo de refugiadxs e do aumento das políticas fascistas do governo Húngaro. O governo lançou uma campanha nas rotas de trânsito dos Balcãs com anúncios que dizem “Os Húngaros são hospitaleiros, mas quem tentar entrar na Hungria ilegalmente enfrentará acções violentas. Passar a fronteira do país ilegalmente é um crime punível com pena de prisão. Não confiem nos facilitadores de tráfico. A Hungria não permitirá que imigrantes ilegais atravessem o seu território.” Durante o mês de Setembro o parlamento húngaro aprovou leis mais severas para “controlar” xs refugiadxs, reduziu o prazo e apertou as condições para pedidos de asilo, limitando também as possibilidades de recurso.

Ver as ruas assim, agora, dá medo. Durante o mês de agosto e início de setembro, grande parte dxs refugiadxs conseguiu sair graças às redes de solidariedade húngaras (e não só) que rapidamente proliferaram e criaram excentes de mantimentos. Uma outra parte foi levada para as periferias, para os campos mais do que sobrelotados (que estavam já sobrelotados há um ano atrás) onde aguardam que lhes decidam o futuro em condições sub-humanas, sujeitxs também a violência física por parte das patrulhas desses mesmos campos.

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O fluxo continua, não foi interrompido. Nas últimas semanas xs refugiadxs que tentaram passar pela Hungria foram impedidxs. Xs que tentam entrar ou que são apanhadxs em território húngaro são presxs, registadxs e forçadxs a pedir asilo, mal tratadxs, forçadxs a condições deploráveis e sujeitxs a violência policial e militar. Os tribunais rejeitam a maioria dos pedidos de asilo e estas pessoas ficam proibidas de entrar na zona Schengen por um período que pode ir de 1 a 5 anos.

Na Eiffel tér há agora esplanadas coloridas sobre um estrado de madeira. E pessoas brancas de classe média voltaram a usar o espaço para relaxar, brincar, comer um gelado, fumar um cigarro. Há dois meses era um dos vários locais da cidade onde refugiadxs se encontravam e passavam o seu tempo, aguardando por indicações sobre como prosseguir viagem.

À tarde, ao fundo da minha rua, um sem-abrigo procura restos de comida nos contentores. Como é branco e presumivelmente húngaro, é invisível para as pessoas que passam.

À noite, trabalhadoras do sexo ocupam os seus postos habituais no Teréz Korut. Os grupos de brancos de classe média que passam continuam a olhá-las de lado e mandar bocas, ainda que algum deles volte umas largas horas mais tarde, sozinho, e muito discretamente contrate os seus serviços, fazendo-se ser seguido até à pensão mais próxima.

Tudo voltou ao “normal”. Só que não.

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Imagens retiradas daqui.

Notícias actualizadas aqui.

Mapa actualizado com indicação das zonas onde é preciso ajuda.

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This entry was posted on 07/10/2015 by in PT and tagged , , .
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