MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Refugiados, esoterismo, problemas de classe e caçadores de monstros

«No entanto, este papel revolucionário que práticas deste tipo podem ter é boicotado quando as práticas são monopolizadas por uma raça e classe.

Princípios vagos como “amor Universal” são reinterpretados à luz de uma só classe que tem uma noção específica de amor e de universalidade, tornando o amor universal tudo menos universal.»


Este texto vai provavelmente sair um pouco confuso, mas é algo que preciso mesmo de escrever neste momento.

Hoje, depois de  partilhar num post a petição para que Portugal aceitasse mais refugiados do que o número definido pela UE, alguém me perguntou o que é que eles vinham cá fazer se não há emprego nem para os portugueses.Aliás, os comentários foram tão terríveis que os vou transcrever aqui integralmente:

“Só uma pergunta: se há dinheiro para receber refugiados porque é que não há também dinheiro para os desempregados deste País?

E outra pergunta: o que é que se vai fazer com esses refugiados? Que trabalho é que se lhes vai dar? É que já não há trabalho para os Portugueses…

Portanto…não sei muito sinceramente o que é que vêem fazer para Portugal…a não ser aumentar o número de gente que vive na miséria neste País…mas pronto, Portugal é o país dos bonzinhos…”

Estes comentários irritaram-me tanto que nem lhes consegui responder e passei o resto da tarde a pensar em muitas coisas que quero tentar articular neste texto.

Durante praticamente um ano vivi bem abaixo da linha da pobreza. Com algumas flutuações, o ordenado que entrava cá em casa na maioria dos meses era de 385 euros para duas pessoas. Eu e a Niara sobrevivemos fazendo alguns trabalhos extra altamente precários e com o dinheiro que, a grande custo pessoal, as nossas famílias nos podiam dar para ajudar um bocado. Em parte a culpa disto foi minha, por querer sair de casa sem me aperceber que ainda não tinha estabilidade económica suficiente na altura para o fazer. A outra parte da culpa é do governo que delapidou completamente a possibilidade de a maioria das pessoas viver neste país para pagar uma dívida que, em grande parte, é privada. Custa-me imaginar o que pessoas sem uma família para dar uma ajuda, ou com filhos, ou em muitas outras situações piores estarão a passar, mas não consigo deixar de pensar que mesmo que o acolhimento de refugiados traga problemas ao país me parece muito melhor passar dificuldades para que haja uma intervenção naquela que é, provavelmente, a maior crise humanitária de que tenho memória do que para pagar a merda do buraco que os investidores do BPN causaram na economia portuguesa. Sem saber nada de economia, pessoalmente custa-me muito mais ver todos os serviços públicos deste país delapidados para salvar bancos do que imaginar sítios de onde se pode tirar dinheiro para lidar com os refugiados.

Caindo na demagogia do costume, sinto um pudor enorme quando me imagino frente a frente com um refugiado sírio e lhe digo “Desculpa, não podes entrar, há demasiada miséria”, por mais que me tenha custado sobreviver ao ano passado.

Não que não devamos ter um plano para lidar com os refugiados, mas há situações para planear e há emergências. Isto é, claramente,uma emergência. Ultrapassa-me como é que os mesmos conservadores que lutam pela vida de um feto, querem travar a entrada de refugiados na Europa enquanto cadáveres dão à costa todos os dias.

Isto leva-me ao segundo ponto da minha digressão pela alma.Eu estou longe de ser um ateu convicto. Fui um católico bastante convicto uma altura da minha vida, um “free thinker” bastante convicto durante outra altura da minha vida e cheguei a um momento em que percebi que nunca conseguiria conciliar os meus desejos e a minha felicidade com uma ontologia única.Digamos, então, que desde aí a minha vida tem sido uma espécie de dança entre paradigmas comigo a fazer ciência durante o dia e a espalhar a superstição à noite. Percebi que podia integrar o meu amor pela linguística, por algumas práticas religiosas e pelo ocultismo numa só pessoa que não faz muito sentido mas que leva uma vida mais feliz a maioria do tempo.

Por ter interesses tão variados e contraditórios, acabo por conhecer pessoas de mundos muito diferentes. Todos esses mundos têm vantagens e desvantagens enormes. A pessoa que fez aqueles comentários é uma pessoa do mundo do esoterismo.

Sem generalizar e sabendo que provavelmente a maioria das pessoas nem cai nestes erros, parece-me que o esoterismo europeu contemporâneo tem dois sinais de alerta muito graves que podem levar a problemas ainda mais graves.

Para começar, a maioria das práticas espirituais tem uma elevada marca de classe. Isto é, se não contarmos com práticas mágico religiosas nascidas em contextos pobres como o Candomblé e a Umbanda (que também se praticam cá), a maioria das práticas espirituais custa dinheiro e não é pouco.Por mais que me digam que o Reiki” é uma cura ao alcance de todos”, os preços de um curso de Reiki mostram que ele não está ao alcance de todos. O mesmo relativamente a astrologia, xamanismo, druidismo e um monte de outras coisas. É claro que astólogos e xamãs têm de comer, e como ocupações ostracizadas não podem propriamente fazer tudo pro bono. No entanto, o efeito disto em larga escala é que as práticas espirituais estão dominadas por pessoas de média burguesia (a cair para o alto) ou pessoas com muito dinheiro. São, então, muitas vezes espaços de um conservadorismo atroz e assustador. Qual não é o meu espanto e da Niara, quando um dia, depois de uma meditação de Reiki em que se falava de amor universal, alguém se lembrou que a porta do lugar estava aberta e a foi fechar “não fosse algum vagabundo entrar”, ao que outra pessoa respondeu que achava bem mas que não tinha nada contra vagabundos e que um dia até fez um saco com comida para um.

A verdade é que, pelo seu estatuto marginal, muitas  práticas mágico religiosas tiveram papéis profundamente revolucionários na história (todas as religiões de matriz africana são um bom exemplo) e ainda  hoje servem de espaço imaginário em que a diferença prolifera (por exemplo, enquanto que eu não conheço cientistas trans* sei que a mais famosa taróloga do mundo é trans*). Na Bahia, o candomblé, por ter começado na população negra,  tornou-se uma religião em que se cruzavam as vítimas de opressão em geral, sendo uma religião com enorme adesão da comunidade queer, por exemplo.

No entanto, este papel revolucionário que práticas deste tipo podem ter é boicotado quando as práticas são monopolizadas por uma raça e classe, algo que está a acontecer com a filosofia New Age, ou mais concretamente com o resultado contemporâneo da revolução teosófica.

Desta forma, princípios vagos como “amor Universal” são reinterpretados à luz de uma só classe que tem logicamente uma noção específica de amor e de universalidade, tornando o amor universal tudo menos universal.

Assim é bem possível que enquanto andamos nós, brancos com algum dinheiro para nos metermos nestas coisas, a mandar boas energias para isto e para aquilo, acabemos por pedir no facebook que se trave a entrada de refugiados que fogem de uma zona de guerra. Três hurras para o amor universal.

O segundo perigo que pode emergir na espiritualidade é o egocentrismo. A espiritualidade pretende, muitas vezes, livrar-se das noções de“self” para que haja uma fusão com princípios universais. No entanto, na espiritualidade olha-se para dentro e eu sinto, do alto da minha arrogância,que quem olha demasiado para dentro pode acabar egocêntrico. Ou seja, depois de se fundir com o universo e perceber os ritmos da vida, pode achar de facto irrelevante que se fale em salvar refugiados. Sabem aquela frase do Nietzsche sobre olhar para o abismo e caçar monstros?

Escrevi isto porque me aflige como é que alguém que está num meio em que se  prega o que se prega não tem pudor em falar da sua própria miséria para justificar que se fechem as portas a refugiados de zonas de guerra.

Pode ser que um dia, se o ISIS chegar mesmo à Península Ibérica, o peixe morra pela boca.

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3 comments on “Refugiados, esoterismo, problemas de classe e caçadores de monstros

  1. platypuss38platy
    08/10/2015

    nice. muito fixe mesmo. podias escrever um textinho a desenvolver a ideia de uma ontologia alternativa (ou uma contra-ontologia) enquanto expressão revolucionária. ainda tenho na cabeça aquela frase que me disseste do outro gajo: queiramos ou não, a nossa marginalidade faz do nosso conhecimento revolucionário.
    nada que me seja estranho, né? mas curtia bué ouvi-lo de ti 🙂
    (also, if you have the time, an English translation of this would be most useful :p)

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    • simaoraptor
      08/10/2015

      Tenho andado a trabalhar num texto sobre papéis revolucionários de ontologias alternativas, mas ainda não consegui expressar tudo aquilo que quero expressar xD

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      • platypuss38
        10/10/2015

        não conseguiste nem vais conseguir. nenhuma de nós consegue : ). vai para a frente com o que houver…

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This entry was posted on 08/10/2015 by in PT and tagged , , .
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