MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Testemunho do atentado em Ancara – [PT] & [ENG]

«Este é o mais recente duma série de eventos violentos que têm ocorrido desde que se tornou claro que o HDP (Partido Democrático do Povo) iria ter votos suficientes nas eleições legislativas de 7 de Junho para negar ao presidente Recep Tayyıp Erdoğan a maioria parlamentar que ele precisava para impor um executivo presidencial Putiniano. Antes das eleições houve 170 ataques violentos a escritórios do HDP, ataques à bomba em escritórios do HDP em Adana e Mersin, e depois o ataque à bomba do último cortejo final pré-eleitoral do HDP em Diyarbakır, que matou quatro pessoas.»


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Há muito mais a relatar, mas preciso de me dedicar à organização do que vamos fazer no meu emprego amanhã.

Um duplo ataque à bomba suicida numa marcha pela paz organizada por sindicatos em Ancara no útimo sábado matou mais de 100 pessoas e deixou mais de 500 feridas.
A marcha for a convocada por dois sindicatos: DISK e KESK, a ordem de engenheirxs e arquitectxs e a Associação Médica Turca. Centenas de autocarros organizados pelos sindicatos trouxeram milhares de pessoas de toda a Turquia para o ponto de encontro perto da estação ferroviária de Ancara.

Juntámo-nos em frente à estação ferroviária de Ancara. Enquanto organizávamos o nosso contingente, distribuíamos bandeiras e faixase nos preparávamos para entrar na formação da marcha ouvimos dois grandes estrondos. Pessoas começaram a chorar. Fizemos o que conseguimos opara tentar parar o pânico e por as pessoas a andar calmamente, não a correr, para longe da explosão. As pessoas tinham perdido os seus sapatos, xs amigxs, a compostura. Enquanto nos afastávamos vimos partes de corpos humanos espalhadas pelo chão, atiradas pela força das explosões. Apercebemo-nos agora que teríamos estado a meio do caminho entre as duas explosões e a cerca de 30 metros de cada uma delas.

Virámos numa esquina e passámos por baixo da ponte dos comboios. Lá vimos polícia de intervenção a aproximar-se a toda a velocidade, enquanto que as ambulâncias eram forçadas a esperar.

Sabemos agora que agendes desta polícia de intervenção atacaram pessoas que ajudavam na assistência a quem tinha sido atacada com gás lacrimogéneo e canhões de água enquanto que xs mortxs continuavam deitadxs no chão.

Bodies of victims are covered with flags and banners as a police officer secure the area after an explosion in Ankara, Turkey, Saturday, Oct. 10, 2015. Two bomb explosions apparently targeting a peace rally in Turkey's capital Ankara on Saturday has killed many people a news agency and witnesses said. The explosions occurred minutes apart near Ankara's train station as people gathered for the rally organized by the country's public sector workers' trade union. (AP Photo/Burhan Ozbilici)

Tínhamos viajado de Istambul a Ankara num autocarro de trabalhadorxs dos correios. Antes que pudéssemos regressar a Instambul, precisavamos de esperar por notícias de toda a gente [que tinha ido no nosso autocarro]. Finalmente um trabalhador cuja perna tinha sido retalhada por estilhaços de bomba chegou num táxi. Tivémos de pegar nele ao colo para subir para o autocarro. No hospital nem sequer lhe tinham dado uma canadiana. Ouvimos dizer que o presidente da filial número 9 do sindicato dxs trabalhadorxs dos correios estava nos cuidados intensivos. Com os corações pesados, voltámos para casa.

Este é o mais recente duma série de eventos violentos que têm ocorrido desde que se tornou claro que o HDP (Partido Democrático do Povo) iria ter votos suficientes nas eleições legislativas de 7 de Junho para negar ao presidente Recep Tayyıp Erdoğan a maioria parlamentar que ele precisava para impor um executivo presidencial Putiniano. Antes das eleições houve 170 ataques violentos a escritórios do HDP, ataques à bomba em escritórios do HDP em Adana e Mersin, e depois o ataque à bomba do último cortejo final pré-eleitoral do HDP em Diyarbakır, que matou quatro pessoas.

O partido de Erdoğan, AK, fez um pacto com o diabo na forma de estado profundo da Turquia, o aparato secreto dentro das forças de segurança que foi responsável por anos de terror na década de 1990, quando milhares foram vitimas de “assassinato de autoria desconhecida” ou simplesmente desapareceram, tendos os ossos sido dissolvidos em poços de ácido.

Tal como na década de 1990, os assassinatos atribuídos a “terroristas”  provocam medo e ódio. Anos depois descobriu-se que não foram obra de “terroristas” mas levados a cabo, ou encomendados, ou arranjados, pelo estado profundo.

O evento único mais importante que precedeu a intensificação da violência na Turquia e o fim do cessar-fogo de dois anos com o PKK foi o atentado à bomba em Suruç que matou 33 jovens activistas socialistas. O Primeiro Ministro Davutoğlu agora diz que o governo “apanhou a pessoa responsável”. Isto foi um ataque suicida. Nenhuma pessoa viva alguma fez foi responsabilizada, apesar de se saber que quem detonou a bomba estava a ser seguidx pelas forças de segurança. Acusaram o Estado Islâmico de autoria do atentado, mesmo que o ávido de visibilidade pública Estado Islâmico não o tenha reclamado, apesar de a BBC dizer o contrário. O bombista pode ter acreditado ou não que estava a agir pelo Estado Islâmico, mas não se conseguiu estabelecer nenhuma ligação efectiva.

Mas foi uma intervenção dos Estados Unidos depois de Suruç que deu início à intensa violência estatal sob a qual vivemos agora diariamente. Em troca do usufruto da base aérea de Incirlik no Sudeste da Turquia por aviões de guerra dos EUA para bombardear a Síria, os EUA deram luz verde aos bombardeamentos por raids áereos de aviões de guerra Turcos em alvos Curdos no Iraque e na Turquia.

Agora, terra por terra, cidade por cidade, as forças de segurança do estado Turco declaram recolher obrigatório, atacando a população e detendo representantes locais oficiais de eleições. Estão a tentar forçar estes oficiais de eleições a declarar que as eleições não podem ocorrer em segurança nestes distritor onde o HDP habitualmente tem 80-90% dos votos.

Mas toda esta violência e repressão não parece ter efeito. As sondagens não mostram nenhuma queda no apoio ao HDP. Se há alguma mudança, o apoio entre Curdxs em risco está a aumentar. O apoio ao HDP entre Turcxs e outros grupos étnicos também não tem diminuido. A resposta do governo, do presidente, e das forças do estado profundo da Turquia a quem estão aliados, é intensificar ainda mais a violência.

A cada semana a violência, a repressão e supressão da liberdade de expressão está a aumentar. O co-presidente Selahattin Demirtaş ia falar esta semana no Bugün, num pequeno canal de televisão. 24 horas antes da emissão, esse canal e alguns outros foram retirados do satélite televisivo Digiturk pelo Ministério Público por “apoiarem o terrorismo”. Um desses canais de televisão era um canal infantil.

O que nos traz ao ataque de sábado em Ankara.

O governo não declarou três dias de luto pelas vítimas de Ankara. Declarou três dias de luto pelas vítimas de Ankara, e pela polícia, soldadxs e guardas de territórios paramilitares que morreram desde Julho. Notavelmente xs civis que morreram em zonas curdas nesse mesmo período não foram incluídxs. Nas declarações preferidas sobre as bombas de ontem, o Primeiro Ministro Davutoğlu começou por apontar o PKK como possível culpado, seguido de uma guerilha armada de esquerda e só depois o Estado Islâmico. Passou 20 dos seus 30 minutos de discurso a atacar o HDP.

Em resposta a estas acusações de Davutoğlu, o co-presidente do HDP, Selahattin Demirtaş, disse “Nós somos Turcxs e somos Curdxs, nós somos soldadxs, nós somos polícia. Nós somos que morrer. Nós sabemos para o que as vossas crianças acordam. Elas não morrem. Nós morremos. E vocês são os responsáveis.”

Por trás da diminuição de ataques violentos do governo Turco à sua própria população está a polícia de intervenção na guerra civil na Síria. Neste contexto de todas as intervenções externas na Síria, o governo Turco tem tentado lutar pelos seus interesses, e lucrar com eles, agindo como facilitador das intervenções do Qatar e da Arábia Saudita na Síria.

Agora o governo Turco está a receber apoio dos EUA pelos ataques às populações Curdas, na forma de usufruto da báse aérea de Incirlik. E está também a chantagear a União Europeia a apoiar as ambições regionais da Turquia ameaçando abrir as fronteiras com a Europa, permitindo a saída de dois milhões de Sírixs a quem tem sido negado estatuto de refugiadxs na Turquia.

As mãos da UE e dos EUA estão sujas. Têm apoiado sempre regimes repressivos na Turquia e aprovado todos os golpes militares na história da Turquia. Agora as suas intervenções na Síria também são responsáveis por fazer disparar as taxas de mortalidade na Turquia. Nós sofremos 600 mortes desde as eleições de 7 de Junho.

O massacre em Ankara pode ser atribuído ao Estado Islâmico, mas os culpados reais estão bem mais perto de casa. Bombardear a Síria não é solução. Vai fortalecer o Estado Islâmico na Síria e no Iraque e aumentar o número de assassinatos na Turquia pelo estado profundo.

Usar os acontecimentos na Turquia como desculpa para aprovar o bombardeamento da Síria pela Inglaterra seria uma hipocrisia perigosa.

Agora os sindicatos e associações que convocaram a manifestação pela paz convocaram uma greve geral para Segunda e Terça-feira. A natureza dividida dos sindicatos Turcos significa que esta greve geral não paralizará a Turquia. Contudo, será uma oportunidade nos locais de trabalho e nas ruas para construir uma unidade de exploradxs de diferentes etnias e credos contra as elites que querem defender os seus poderes e por-nos a lutar entre nós. Esta união de classe é a única forma da Turquia e todo o Médio Oriente poder prosseguir.

11/10/2015
[Tradução do post no facebook]:

English speaking friends. The longer note I promised you yesterday.

There is much more to write, but I need to turn to organising what we will do in our work place tomorrow.

A double suicide bombing at a Trade Union organised peace march in Ankara last Saturday killed over 100 people and injured over 500.

The march had been called by two trade union federations, DISK and KESK, the Chambers of Engineers and Architects and the Turkish Medical Association.

Hundreds of union organised buses brought tens of thousands of people from all over Turkey to the assembly point near the Ankara railway station.

We gathered in front of Ankara railway station. While we were organising our contingent, distributing flags and banners and preparing to enter the line up for the march we heard a very loud double bang. People started to cry. We did what we could to stop panic and to get people to walk, not run, calmly away from the explosion. People had lost their shoes, their friends, their composure. As we moved away we saw human body parts lying on the ground, thrown there by the force of the explosions. We now realise we had been mid way between the two explosions and about 30 metres away from each.

We turned a corner and passed under the railway bridge. There we saw riot police approaching in full gear, but ambulances being kept waiting.

We now know that these riot police attacked those rescuing the wounded with tear gas and water cannon while the dead were still lying on the ground.

We had travelled from Istanbul to Ankara on a postal workers union bus. Before we could return to Istanbul we needed to wait for everyone to be accounted for. Finally one postal worker whose leg had been shredded by shrapnel from the bomb arrived in a taxi. We had to lift him up the stairs into the bus. They hadn’t even given him a crutch in the hospital. We got word that the President of the number 9 branch of the Postal Workers Union was in intensive care. With heavy hearts, we set off home.

This is the latest in series of violent provocations that have occurred since it became clear that the HDP (Peoples Democratic Party) was going to get enough votes in the June 7 general election to deny President Recep Tayyıp Erdoğan the parliamentary majority he needed to impose a Putin style executive presidency. Before the election there were 170 violent attacks on HDP offices, bombings of HDP offices in Adana and Mersin, then the bombing of the final HDP election rally in Diyarbakır, killing four people.

Erdoğan’s AK Party have made a pact with the devil in the shape of Turkey’s deep state, the secret apparatus within the security forces that was responsible for the years of terror in the 90s when thousands were the victims of “murder by persons unknown” or simply disappeared, their bones dissolved in acid wells.

Just as in the 1990s, killings blamed on “terrorists” provoke fear and hatred. Years later it turns out that they were not the work of “terrorists” but carried out, or ordered, or arranged by the deep state.

The single most important act that preceded the turn to an intensification of violence in Turkey and the end of the two year ceasefire with the PKK was the bombing at Suruç which killed 33 young socialist activists. Prime Minister Davutoğlu now makes the absurd claim that the government “caught the person responsible”. It was a suicide bombing. No living person has ever been held to account, despite the fact that the bomber was being tracked by the security forces. The bombing was blamed on Islamic State although the notoriously publicity hungry Islamic State has never claimed responsibility, despite BBC claims to the contrary. The bomber may or may not have believed that he was acting for Islamic State, but no actual connection has been established.
But it was an intervention by the United States after Suruç that began the intense government violence that we now live with every day. In exchange for use of the Incirlik air base in South Eastern Turkey by US war planes to bomb Syria, the US gave the green light to bombing raids by Turkish war planes on Kurdish targets inside Iraq and in Turkey.

Now town by town, city by city the security forces of the Turkish state are declaring curfews, attacking the population and arresting local elected officials. They are attempting to force election officials to declare that the election cannot be safely carried out in these districts where the HDP gets 80-90% of the vote.

But all of this violence and repression appears not to be working. Opinion polls show no fall in the support for the HDP. If anything, support among the embattled Kurds is increasing. Support for the HDP among Turks and other ethnic groups is not falling, either.

The response of the government, the president, and the forces of Turkey’s “deep state” with whom they have made an alliance, is to step up the violence even further.

Every week the violence, the repression and the suppression of free speech is increasing. HDP co-chair Selahattin Demirtaş was due to speak on Bugün, a small TV channel this week. 24 hours before the broadcast, that channel and seven others were removed from the Digiturk TV satellite by order of the public prosecutor for “supporting terrorism”. One of the channels was a children’s channel.

Which brings us to the bombing in Ankara.

The government has not declared three days mourning for the victims in Ankara. They have declared three days mourning for the Ankara victims and the police, soldiers and paramilitary village guards who have died since July. Notably the civilians who have died in the Kurdish areas in the same period were not included. In his statement about the bombings, Prime Minister Davutoğlu started by posing the PKK as a possible culprit, followed by a left guerilla group and only then Islamic State. He spent 20 out of 30 minutes of his statement attacking the HDP.

In response to Davutoğlu’s attacks HDP co-chair Selahattin Demirtaş said “We are Turks and we are Kurds, we are soldiers, we are police. We are the ones who die. We know what your children get up to. They don’t die. We die. And you are responsible.”

Behind the descent of the Turkish government into violent attacks on their own population lies the policy of intervention in the civil war in Syria. Within the context of all the foreign interventions in Syria, the Turkish government has tried pursue its own interests, and turn a profit, by acting as proxy for Saudi Arabian and Qatari intervention in Syria.

Now the Turkish government is getting backing from the US for its attacks on the Kurds by offering use of the Incirlik air base. And also blackmailing the European Union into supporting Turkey’s regional ambitions by threatening to open the doors to allow the 2 million Syrians who are being denied proper refugee status in Turkey to cross the border into Europe.

The hands of the EU and US are dirty. They have always stood behind repressive regimes in Turkey and approved every military coup in Turkey’s history. Now their interventions in Syria are also responsible for fuelling the rising death toll in Turkey. We have suffered 600 dead since the June 7 election.

The massacre in Ankara may be blamed on the Islamic State. The real culprits are closer to home. Bombing Syria is no solution. It will strengthen Islamic State in Syria and Iraq and increase the murderous activities of the deep state in Turkey.

Using events in Turkey as an excuse for voting for British bombing of Syria would be dangerous hypocrisy.

Now the unions and associations that called Saturday’s peace demonstration have called a general strike for Monday and Tuesday. The divided nature of the unions in Turkey means that this general strike will not bring life to a stop in Turkey. It will, however, be an opportunity in the work places and on the streets to build the unity of the exploited from different ethnicities and beliefs against the elites who want to defend their power by having us die fighting one another. This class unity is the only way forward for Turkey and for the whole of the Middle East.

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2 comments on “Testemunho do atentado em Ancara – [PT] & [ENG]

  1. Pingback: “Testemunho do atentado em Ancara”* | L´obéissance est morte

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This entry was posted on 11/10/2015 by in ENG, PT and tagged , , , .
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