MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Dis.ci.pli.na

disciplina

«Among the several images presented in the original Surveiller et Punire that weren’t included in the English translation, the one which shows orthopedics as a custodian and a ruler is probably the greatest loss. And of all of them, it is the one that best illustrates the idea of discipline: the caretaker is also the one who imposes order, the norm is both rigid and solicitous, the power of the ruler resides in its own body, in its form, in its posture, and it tends to diffuse itself through the incorporation in undisciplined bodies. Discipline is the ruler that both straightens up and measures.»


escrevi este desabafo há quase um ano atrás. hoje,a viver no UK há já 12 meses, no início do novo ano lectivo, após uma interrupção de estudos, depois de quatro meses – quatro – de depressão e cama e falta de vontade de viver — hoje,  precisei de voltar a olhá-lo,


A minha disciplina.

Estamos agora na quinta semana do ano lectivo em Cambridge. Estou a escrever o meu trabalho sobre interdisciplinaridade e a odiá-lo. Agora sim, tenho as referências, as datas, os nomes de pessoas mortas. Só na primeira página tenho três parágrafos inteiros a regurgitar os argumentos de um autor que não admiro particularmente; em todas as frases referindo o nome do mesmo claro, não vá estar a roubar propriedade intelectual. Tirei as especulações, as frases demasiado compridas, as brincadeiras pomo, os arabesques em geral e tudo aquilo que não se pudesse associar imediatamente a uma estética académica. O trabalho começa agora a ter uma forma híbrida entre um trabalho merdoso de secundário com citações da wikipedia e um dos vinte mil artigos académicos que saem todos os anos, que se lêem e deitam fora, que não mudam nada, que são uma repetição incessante da novidade, que não me mexem no peito, que não servem para nada a não ser alimentar a ilusão que também nós, críticas da ciência, não deixamos de alimentar a máquina do conhecimento; a nossa resistência virou cumulativismo barato e nem demos por isso.

Isto é tudo absurdo. Comecei a trabalhar o conceito de interdisciplinaridade porque…. Bem, na verdade foi a primeira das concessões: queria trabalhar a ideia de disciplina mas disseram-me que era um tema demasiado abrangente, e eu aceitei e disse que sim e achei que podia usar a interdisciplinaridade, sair pela porta das traseiras, trabalhar a ideia de disciplina, e voltar a entrar sem que ninguém desse por isso.

Porquê trabalhar a noção de disciplina? Porque tive relações diferentes com ela e com a universidade nos últimos dois anos. Porque um dos meus maiores projectos em anos recentes foi precisamente tentar reconstruir a minha relação com a academia de forma a não me sentir esmagado por ela, assutado com a sua presença, ou sentir que lhe devo algo; uma espécie de pecado original da meritocracia: não ser bom o suficiente. A ideia de disciplina só apareceu quando li o vigiar e punir do foucault. Mexeu comigo a ideia da prisão, da fábrica e da escola como laboratórios de construção de subjectividade, de controlo, de domínio, de conhecimento. E pela altura a ideia de disciplina como unidade organizada de conhecimento também me andava pela cabeça: estar no curso de estudos gerais fez-me repensar como o regime disciplinar era tão fundamental aos modos de produção de conhecimento que conhecemos; como a sua seccionalidade era tão proibitiva do conhecimento subjectivo e tão constitutiva do conhecimento ‘válido’. foucault + estudos gerais = talvez os dois significados de disciplina não sejam assim tão distintos, talvez tenham uma raiz social e histórica em comum.

Passaram cinco semanas desde que comecei a trabalhar no tópico. Uma coisa é certa, a reflexividade de que estava à procura está presente: não me lembro de alguma vez estar tão consciente de um processo de disciplinarização tão bruto na minha vida. Por um lado é a escrita: perde toda a dimensão artística, transformo-me em máquina de palavras, regurgito citações, volta e meia rumino um pensamento e chego a qualquer coisa interessante, mas é tudo tão intenso que tenho pouco tempo para a respirar. Tenho a reflexividade na cabeça, mas se a tento passar par ao papel corro o risco de chumbar; e isto nem é conhecimento tácito, foi-me anunciado.

Mas não é só a escrita. O grande problema é que Cambridge (com letra maiúscula) é gigante. Gigante mesmo. Tudo é Cambridge, tudo é universidade: o meu departamento, os meus estudos, as relações com os meus colegas com as minhas professoras, a forma como durmo, a forma como como, a cama é Cambridge, a cantina é Cambridge, se danço é numa Society, que também é Cambridge. Há um sentimento geral, avassalador, dificílimo de combater: a população de Cambridge são estudantes. De novo: a população de Cambridge são estudantes; só estudantes. Sou estudante a dormir, a comer, a estudar, a falar, a ler, a escrever, a andar, a dançar, a beber. (felizmente ainda não sou estudante a foder; valha-me isso). Passei dois anos a diminuir a universidade na minha cabeça para que a palavra estudante não aparecesse gravada em cima do meu nome no bilhete de identidade; e agora deparo-me com o risco real de acontecer o pior: de ela aparecer enquanto meu nome.

A disciplina é isto: ela não te contém, ela constrói-te. A disciplina é que faz de ti o que és. É uma performatividade contínua que te vai maleando até não saberes fazer mais nada que não alimentá-la. É disso que é feita a disciplina da escola, da fábrica ou da prisão; mas também é disso que é feita a disciplina académica. Só serei bióloga, física, psicóloga, artista ou historiadora das ciências quando aprender, por repetição intensa, a produzir precisamente aquilo que a disciplina quer de mim. Quando a disciplina fizer de mim disciplina. Mete-se os pés pelas mãos ao construtivismo e à ant: esquece lá a máquina virar humana, tu é que viras máquina.

É isto que é a disciplina. Não é uma black box. É uma caixa transparente de produção de cidadãos, bons alunos, funcionários eficientes e, porque não, de uma minoria de doentes mentais e delinquentes.

É certo que ainda não morri, ou não estaria a escrever. Mas dá para aguentar nove meses disto e no final achar que sou o mesmo?

***

[and then the draft of a more developed article I never finished writing….]

How to approach discipline as an object of analysis? Which historical and social factors intervene in the production of discipline? What is discipline? What is it that I am saying when I say I’m part of a certain discipline, when I recognize myself in the condition of member of a field? When one tackles discipline as an object, how should she settle her relation with it? Should she aim for the most possible disciplined way of producing knowledge? Or should she, on the contrary, investigate the nature of discipline through the employment of an undisciplined performance? Is indiscipline even the opposite of discipline? Is there a space where discipline does not exist? And if so, can one speak from there?, can one be heard?, can one produce knowledge?

It is now the sixth week of Cambridge’s academic year. I am on the edge of the deadline for the submission of my first essay. I decided, six weeks ago, to right about discipline. I feel drained; I am writing paragraphs I wouldn’t like to read, formulating ideas in an unaesthetic way, putting forward analytic schemes with which I disagree. I am asked to put footnotes where there were none. To reformulate the paragraphs so that my sources are clear. To give coherence to the authors and ideas presented. To make as clear as possible their sequence and their causality. To identify the social, the individual, the economic, the context. To make clear as water what is mine and what is theirs. To make as explicit as possible the chronological period I am working, to throw in the dates and the data. To make space so that the names of the dead might appear. This is History, after all. Following honest, well-intended recommendations my writing starts becoming a process of maiming my thoughts. Later, no longer through repression but rather through core transformations of the thoughts themselves, they seem to slowly vanish. They now hang over disciplinary knowledge; like the fog I see every morning on awakening, lightly spread over the meadow, and that every day I see vanishing, while I am writing, with the coming of the enlightened sun and the imperative wind. I decided, six weeks ago, to right about discipline.

Asking myself ¿why? I start drawing the mental sketch of my decision, the microgenealogy of my choice. Two moments arise. The first was an interview for a newspaper. The journalist, free-lancer, precarious, was writing about a new graduation in the University of Lisbon called General Studies, and I had just finished graduating. General Studies were a truly innovative course: almost without any mandatory subjects, the students could choose what to study from three different faculties – Fine Arts, Humanities and Sciences. Its first break was obviously with the disciplinary constructions of the fields. It gave students more autonomy and freedom of choice, not feeding the narrow system of specialization in pre-determined disciplines. But something more happened in the space of disciplinarity one generally only relates with the division of branches of knowledge. Indeed, it seemed that being able to interchange between faculties and classes had an effect that went beyond the list of subjects written in the diploma. To start with, the relation between us, students, was different: we now didn’t have a fixed group of colleagues with which we shared all the classes during three years of study. The people we were working with, sharing notes with, commenting the classes with were now less part of a homogeneous group. Most of us didn’t even know each other. As a consequence, the prevalence of competition changed. The educational model of competition and evaluation works as a way of standardizing the subjects that sit together in a class. To fail is to eliminate the unproductive multiplicity. The entire process of selection serves educational institutions as production chains: the more equal is the subject in its learning abilities, the more massive and effective can be educational production. But now people had slightly different backgrounds, and therefore different inputs to the class. On the other hand, how can one feed the impetus of competition when you almost never share your classes with the same person? What is the meaning of having a higher grade average when you’re comparing differential calculus with latin?, literature with gender studies?, physics with visual culture?

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  1. Pingback: The Disciplinarization of Interdisciplinarity I – Unproblematic Disciplines | MODO DE VOLAR

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This entry was posted on 16/10/2015 by in ENG, PT and tagged .
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