MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Manifesto Contrassexual, Paul B. Preciado

Excertos da obra. Lançamento do livro esta semana, em Lisboa e no Porto.

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O Manifesto Contrassexual de Paul B. Preciado vai finalmente ser lançado em portugal. Publicado pelas Edições Unipop, haverá uma sessão de lançamento esta sexta-feira no Porto e no sábado em Lisboa, com a presença respectiva de Ana Cristina Santos e João Manuel Oliveira (investigadoras). Ambas as sessões contarão também com Helena Lopes Braga e Pedro Feijó (investigadoras, paneleiras e tradutoras do livro). Par mais detalhes consultar o site da Unipop ou os eventos no facebook (Lisboa ou Porto).

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Com um tom satírico e corrosivo, este livro traça a genealogia das tecnologias que criam a diferenciação sexual, demonstrando como a sua pretensa naturalidade é produzida por tecnologias sociais, políticas e somáticas. O sexo, diz-nos Preciado, não é a base fixa do género: é preciso olhar o corpo e vê-lo como construído; aí poderemos encontrar novos espaços de resistência.
Um mix media literário (juntando ilustração, exercícios, contrato social, análise literária, etc.), o Manifesto segue as pegadas de Foucault, Wittig, Haraway, Deleuze e Butler, entre outras, para se tornar numa importante contribuição para o feminismo e uma política crítica. Esta é a primeira obra de Preciado editada em Portugal e uma óptima introdução à prática e teoria queer.

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[Da Nota Introdutória]

a perversão e Jesus Cristo: afectos por uma insurreição

Referidos o processo e o contexto de produção, gostava de contar um pequeno episódio pessoal que me parece ilustrar uma dimensão amiúde menosprezada, mas na verdade fundamental, que livros como o Manifesto podem habitar – essa que se encontra na forma como afecta.

Trata-se de um pequeno acontecimento invisível à rotina. Sentada numa carruagem do metro de lisboa, lendo o Manifiesto pela primeira vez, aquilo que primeiro senti foi uma estranha familiaridade. Conheci cedo, como grande parte da minha geração, a tecnologia presente enquanto extensão e alteração do corpo e do ser. Desde sempre estiveram lá as televisões, em pouco tempo os computadores, os game boys, os monitores de bebés, os telemóveis; morfoses dos olhos, da vigilância, dos ouvidos, do controlo; os phones e os MP3, pouco depois os iPods; muitas de nós não se lembram de alguma vez ter feito um projecto escolar sem navegar a internet (aqui prótese intelectual, de acesso a conhecimentos e dados), algumas sequer de o fazer sem uma mão da Wikipédia. As formas de relação e comunicação substituíam-se em sucessão e sobreposição, e com grande rapidez: mIRC, MSN, SMS, Hi5, Hotmail, Facebook. Para algumas houve desde cedo tecnologias de transformação corporal, comprimidos para crescer ao ritmo certo, dispositivos para endireitar membros, máquinas para gerir açúcares e gorduras, aparelhos para corrigir os dentes, a audição ou a visão. Nascemos a ser vacinadas; muitas fomos medicadas desde cedo e eventualmente ninguém lhe escapou: foram os ibuprofenos, as pílulas, as aspirinas, as ganzas, os supositórios, as hormonas, os ácidos, as proteínas para o ginásio, os ansiolíticos, as vitaminas suplementares, os antidepressivos… Corpos expandidos, domesticados, melhorados, modificados, regulados, domados, libertados; corpos em simbiose com tecnologias electrónicas e hormonais, não só rodeados de media mas eles próprios feitos meio. De tal forma rodeadas por ciborgues, aquilo que era inicialmente estranho no Manifesto não era a ideia de não haver uma distinção clara entre natureza e tecnologia ou a de sermos seres fabricados por aquilo que fabricamos; o estranho era como é que algo tão radical nunca tinha sido evidente: como é nunca tinha visto com clareza esse ciber-cordão-hormono-belical. Aí uma proximidade brutal, como quando se lê algures um pensamento que nunca tínhamos conseguido formular.

E no entanto, com tanto de familiar, algo era absolutamente desconfortável. A forma como Preciado aborda tudo isto, a sua contrassexualidade, soava estranhíssima, incómoda, desagradável. Sexualizar todo o corpo, parar de falar de órgãos sexuais, fazer do ânus arma política privilegiada, masturbar braços, fingir orgasmos: que parefarnália digna de ficção-científica pornográfica! E o incómodo, mais do que produto da invulgaridade, vinha de me sentir tão identificada, de tudo isto me fazer tanto sentido: naquela carruagem de metro, no meio de uma multidão absorta, apareceu-me sobre o ombro uma figura com coroa de espinhos (Cristo? A minha Avó?) olhando para mim em desaprovação, desejei baixinho que ninguém reconhecesse o que estava a ler, e voltei a ter presente algo que não vivia desde criança: um sentimento de profunda vergonha.

A política faz-se também de afectos. E a política que faz falta fazer hoje está longe de ser a da competitividade, a da ambição ou a do ‘espírito de iniciativa’; mas também não é simplesmente a da camaradagem e a do sentimento de pertença/união. Numa altura em que não só os nossos contextos/biótipos, mas também os nossos desejos, as nossas identidades e os nossos corpos foram colonizados pelo e fazem parte do estado das coisas – o status quo – que queremos ultrapassar, é preciso construir um arsenal de afectos com os quais possamos organizar a guerrilha. O escárnio de Corsery[1], a intransigência da greve humana de Claire Fontaine[2] e o despudor de Al Berto parecem, aqui e ali, já fazer parte da nossa toolbox de resistência. Mas precisamos também de afectos que nos permitam deslocarmo-nos em relação ao estado das coisas e, portanto, também em relação a nós próprias, mas que, ao mesmo tempo, seja capaz de não nos deixar ir à deriva num oceano de agressões, hostililidades, denúncias e ameaças; afectos cuja potência revolucionária advenha de saber usar o limiar em que estamos seguras o suficiente para experienciar o assustador, confortáveis o suficiente para viver o desconfortável. Importante, nos dias que correm, é a cumplicidade.

E por isso um texto que nos dá a mão envergonhando-nos era um texto que fazia falta traduzir. Preciado apresenta-nos uma linguagem estranha e acessível que, a cada momento, tem de lutar contra o seu próprio desaparecimento, e que reclamar, vezes sem conta, “’aquilo que pede por um nome oculto’, ‘aquilo que não se atreve a ser nomeado’, aquilo que encontram em todo o lado embora não esteja escrito em parte alguma.”[3] É esta, no final de contas, a relevância de uma escrita heterotópica.

(…)

para além de adjectivo, queer como verbo

O Manifesto Contrassexual é queer. Mas não o é apenas em conteúdo, não o é apenas no sentido de fazer parte do campo da Teoria Queer, não o é como produto dum academicismo que se viu dominado por imperativos metodológicos, por concepções progressistas, por pretensões de neutralidade política ou, no melhor dos casos, por uma presença política limpa, branca, higiénica, não-cagada. O Manifesto é uma obra queer precisamente no sentido em que é, logo à partida, uma obra de de-disciplinarização. Uma obra que lança o caos na fronteira do ‘academicamente aceitável’ e, para lá do ‘politicamente correcto’, no ‘concebível politicamente ’. Aquilo que Preciado conseguiu foi um equilibro de estilos panfletários e filosóficos, incendiários e genealógicos, de cartoons e arquivo histórico, de análise literária e reivindicação política, de contra-ficção e manual de exercícios, de contrato social e material de masturbação, de provocação e sensibilidade; em, suma, uma obra de mix media literário, aberração nascida de uma queca entre a vida e a morte, ciborgues num cenário pornográfico.

É claro que este livro não é, só por si, revolucionário; este elogio que fazemos não é apenas ao texto em si, mas também às possibilidades que abre – por vezes tão literalmente. Só há formas queer de escrever na condição de haver formas queer de ler; o ónus da experiência cabe, como sempre, à leitu/ora. Nesse sentido, roça o desperdício pensar as palavras que se seguem como ‘food for thought’, capazes apenas de estímulo intelectual. É talvez preciso deixar os nossos próprios corpos-leitores servirem de alimento à contrassexualidade, ver até onde podem corroborá-la, estendê-la, materializá-la, deixar-se comer; antropofagia de pernas para o ar.

A sugestão, então, é que os capítulos que se seguem não sejam lidos como obra distante, produto de um pensamento a compreender e a dominar para futuras referências eruditas, mas como algo que está muito perto do corpo, ou talvez que venha até do próprio. Mobilizarmo-nos enquanto mente-corpo-alma para poder experimentar e experienciar aquilo que o Manifesto tem para oferecer.

É por esta sua capacidade de estar próximo que o Manifesto Contrassexual seria o primeiro livro que recomendaria como introdução à teorização e prática queer. Ao contrário de livros mais canónicos que se cerram dentro do seu próprio dicionário e surgem enquanto herméticos a qualquer outsider à academia, o Manifesto surge como alienígena, mas alienígena vindo das nossas próprias entranhas.

Desejos de boas contrassexualidades*


[1] Albert Cossery, La violence et la dérision, publicada pela primeira vez em 1964

[2] Desenvolvidos pelo colectivo Claire Fontaine (clairefontaine.ws), vários dos textos sobre a Greve Humana encontram-se online traduzidos para português.

[3] Monique Wittig, no seu ensaio the point of view: universal or particular?  em The Straight Mind, Beacon Press, 1992.


[do primeiro capítulo]

O QUE É A CONTRASSEXUALIDADE?

A contrassexualidade não é a criação de uma nova natureza, mas o fim da Natureza como ordem que legitima a sujeição de uns corpos a outros. A contrassexualidade é, em primeiro lugar, uma análise crítica da diferença de género e de sexo, produto do contrato social heterocentrado, cujas performatividades normativas foram inscritas nos corpos como verdades biológicas (Judith Butler, 2001). Em segundo lugar: a contrassexualidade pretende substituir este contrato social que denominamos Natureza por um contrato contrassexual. No contexto do contrato contrassexual, os corpos reconhecem-se a si mesmos não como homens ou mulheres, mas como corpos falantes, e reconhecem os outros como corpos falantes. Reconhecem a si mesmos a possibilidade de aceder a todas as práticas significantes, assim como a todas as posições de enunciação, enquanto sujeitos, que a história determinou como masculinas, femininas ou perversas. Por conseguinte, renunciam não só a uma identidade sexual fechada e determinada naturalmente, mas também aos benefícios que poderiam obter de uma naturalização dos efeitos sociais, económicos e jurídicos das suas práticas significantes.

A nova sociedade tem o nome de sociedade contrassexual pelo menos por duas razões. Uma, e de maneira negativa: a sociedade contrassexual dedica-se à desconstrução sistemática da naturalização das práticas sexuais e do sistema de género. Dois, e de maneira positiva: a sociedade contrassexual proclama a equivalência (e não a igualdade) de todos os corpos-sujeitos falantes que se comprometem com os termos do contrato contrassexual dedicado à busca do prazer-saber.

O nome contrassexualidade provém indirectamente de Foucault, para quem a forma mais eficaz de resistência à produção disciplinária da sexualidade nas nossas sociedades liberais não é a luta contra a proibição (como foi proposta pelos movimentos de libertação sexual anti-repressivos dos anos setenta), mas a contraprodutividade, ou seja, a produção de formas de prazer-saber alternativas à sexualidade moderna. As práticas contrassexuais que aqui se vão propor devem compreender-se como tecnologias de resistência, ou, dito de outro modo, como formas de contradisciplina sexual.

A contrassexualidade é também uma teoria do corpo que se situa fora das oposições homem/mulher, masculino/feminino, heterossexualidade/homossexualidade. Define a sexualidade como tecnologia, e considera que os diferentes elementos do sistema sexo/género3 denominados “homem”, “mulher”, “homossexual”, “heterossexual”, “transexual”, assim como as suas práticas e identidades sexuais, não são mais que máquinas, produtos, instrumentos, aparatos, truques, próteses, redes, aplicações, programas, ligações, fluxos de energia e de informação, interrupções e interruptores, chaves, leis de circulação, fronteiras, constrangimentos, designs, lógicas, equipamentos, formatos, acidentes, detritos, mecanismos, usos, desvios…

[3 A expressão “sistema sexo/género” foi utilizada pela primeira vez por Gayle Rubin no seu artigo “The Traffic in Women” in Reyna R. Reiter (ed.), Towards an Anthropology of Women, Nova Iorque, Monthly Review Press, 1975.]

A contrassexualidade afirma que no princípio era o dildo. O dildo antecede o pénis. É a origem do pénis. A contrassexualidade recorre à noção de “suplemento” tal como foi formulada por Jacques Derrida (1967); e identifica o dildo como suplemento que produz aquilo que supostamente deve completar.

A contrassexualidade afirma que o desejo, a excitação sexual e o orgasmo não são mais que produtos retrospectivos de certa tecnologia sexual que identifica os órgãos reprodutivos como órgãos sexuais, em detrimento de uma sexualização da totalidade do corpo.

É tempo de deixar de estudar e de descrever o sexo como se fizesse parte da história natural das sociedades humanas. A “história da humanidade” benificiaria em ser rebaptizada como “história das tecnologias”, sendo o sexo e o género aparatos inscritos num sistema tecnológico complexo. Esta “história das tecnologias” mostra que “A Natureza Humana” não é senão um efeito da negociação permanente das fronteiras entre humano e animal, corpo e máquina (Donna Haraway, 1995), mas também entre órgão e plástico.

A contrassexualidade renuncia a designar um passado absoluto onde se situaria uma heterotopia lésbica (amazónica ou não, pré-existente ou não à diferença sexual, justificada por uma certa superioridade biológica ou política, ou como resultado de uma segregação dos sexos) que seria uma espécie de utopia radical feminista separatista. Não precisamos de uma origem pura de dominação masculina e heterossexual para justificar uma transformação radical dos sexos e dos géneros. Não há uma razão histórica susceptível de legitimar as transformações em curso. A contrassexualidade “is the case”. Esta contingência histórica é o material tanto da contrassexualidade como da desconstrução. A contrassexualidade não fala de um mundo por vir; pelo contrário, lê os sinais do que já é o fim do corpo tal como este foi definido pela modernidade.

(…)

A contrassexualidade tem por objecto de estudo as transformações tecnológicas dos corpos sexuados e genderizados. Não rejeita a hipótese das construções sociais ou psicológicas do género, mas restitui-as como mecanismos, estratégias e usos num sistema tecnológico mais amplo. A contrassexualidade reivindica a sua filiação com as análises da heterossexualidade como regime político de Monique Wittig, a investigação dos dispositivos sexuais modernos levada a cabo por Foucault, as análises da identidade performativa de Judith Butler e a política do ciborgue de Donna Haraway. A contrassexualidade supõe que o sexo e a sexualidade (e não apenas o género) devem ser entendidas como tecnologias sociopolíticas complexas; que é necessário estabelecer ligações políticas e teóricas entre o estudo dos aparatos e dos artefactos sexuais (tratados até aqui como anedotas de pouco interesse na história das tecnologias modernas) e os estudos sociopolíticos do sistema sexo/género.

Com a vontade de desnaturalizar e desmistificar as noções tradicionais de sexo e de género, a contrassexualidade tem como tarefa prioritária o estudo dos instrumentos e dos aparatos sexuais e, portanto, das relações de sexo e de género que se estabelecem entre o corpo e a máquina.


Até já*

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This entry was posted on 20/10/2015 by in PT and tagged , .
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