MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Políticas farmacopornográficas: para uma nova ecologia de género – Paul B. Preciado

«Desde a Segunda Grande Guerra, os novos ideais bio-políticos de masculinidade e feminilidade são criados em laboratórios. Estes ideais de género não podem existir num estado puro; só existem nos nossos tecno-ecossistemas sexuais confinados. Enquanto sujeitos sexuais habitamos um parque temático bio-capitalista (que providencia entretenimento, educação, excitação, lazer …) rodeados por um gigante backstage de tralha. Somos homem e mulher de laboratório. Somos os efeitos de uma espécie de bio-platonismo político e científico. (…) Estamos equipadas molecularmente para permanecer cúmplices com as estruturas repressivas dominantes.»


cabelo

Políticas farmacopornográficas: para uma nova ecologia de género (excerto)
Paul B. Preciado

As nossas sociedades contemporâneas são laboratórios sexo-políticos enormes onde o género está a ser produzido. O corpo, o corpo de cada uma de nós, é o enclave precioso onde estão a ter lugar complexas transições de poder. O meu corpo = o corpo da multidão. Aquilo a que chamamos sexo, mas também género, masculinidade/feminilidade e sexualidade são técnicas do corpo, extensões bio-tecnológicas que pertencem ao sistema sexo-político cujo objectivo é a produção, reprodução e expansão colonial da vida humana heterossexual no planeta.

Desde a Segunda Grande Guerra, os novos ideais bio-políticos de masculinidade e feminilidade são criados em laboratórios. Estes ideais de género não podem existir num estado puro; só existem nos nossos tecno-ecossistemas sexuais confinados. Enquanto sujeitos sexuais habitamos um parque temático bio-capitalista (que providencia entretenimento, educação, excitação, lazer …) rodeados por um gigante backstage de tralha. Somos homem e mulher de laboratório. Somos os efeitos de uma espécie de bio-platonismo político e científico. Mas estamos vivas: ao mesmo tempo materializamos o poder do sistema fármaco-pornográfico e a sua possibilidade de fracasso.

Estamos equipadas molecularmente para permanecer cúmplices com as estruturas repressivas dominantes. Mas o corpo farmacopornográfico, tal como o corpo sexualmente disciplinado do final do século XIX, não é dócil (ao contrário do que Foucault afirma). Este corpo não é simplesmente um efeito dos sistemas de controlo farmacopornográfico; é antes de mais toda a materialização da ‘puissance de vie’, o ‘poder de vida’ que aspira a transferir para todo e qualquer corpo. Paradoxalmente o sujeito farmacopornográfico incorpora a força da transformação mundial da tecno-cultura.

O corpo na erra farmacopornográfica não é um material passivo  mas uma interface tecno-orgânica, um sistema de tecno-vida segmentado e territorializado por diferentes modelos políticos (textuais, informáticos, bio-químicos). Não há sucessões de modelos que serão historicamente suplantados por outros, não rupturas, não há descontinuidades radicais, mas antes simultaneidade desconectada, acção transversal de vários modelos somatico-políticos que operam com diversas intensidades, diversos níveis de penetração e diversos graus de eficácia na produção da subjectividade.

Darei apenas um exemplo de tal justaposição de ficções somáticas que exerce um efeito nos nossos corpos, nas nossas vidas. Como explicar que no início do século XXI a rinoplastia (cirurgia nasasl) seja considerada uma cirurgia cosmética enquanto a vaginoplastia (construção cirúrgica da vagina) e a faloplastia (construção cirúrgica do pénis) sejam consideradas operações de mudança de sexo? Poderíamos dizer que actualmente, e no mesmo corpo, o nariz e os órgãos sexuais são considerados através de dois regimes de poder completamente diferentes. O nariz é regulado por um poder farmacopornográfico no qual um órgão é considerado propriedade individual e o objecto de mercado, enquanto que os genitais estão ainda contidos num regime de poder pré-moderno e quase soberano que os considera propriedade estatal (e enquanto extensão deste modelo teocrático, propriedade de Deus) em virtude de uma lei transcendente e imutável. Mas o estatuto dos órgãos no regime farmacopornográfico está a passar por uma rápida mudança, de tal forma que a multiplicidade inconstante dos sistemas de produção opera simultaneamente em qualquer corpo. Aquelas que sobreviverem à mutação actual verão os seus corpos mudar de um sistema semiotico-técnico; por outras palavras, não serão mais os corpos que foram.

Quarenta anos depois da invenção de técnicas endócrinas de controlo de género (como a pílula) todos os corpos sexuais estão sujeitos a uma plataforma farmaco-pornográfica comum. Hoje um bio-homem toma um suplemente hormonal de testosterona para melhorar a sua performance desportiva; um composto subcutâneo de estrogénio e testposterona, activo durante mais de três anos, é implantado numa adolescente como contraceptivo; uma bio-mulher que se defina como homem pode assinar um protocolo de mudança de sexo e aceder a terapia endocrinológica baseada em testosterona que fará com que cresça barba e bigode, aumente a musculatura e seja percebido socialmente como um homem em menos de oito meses; uma bio-mulher de sessenta de anos que ingeriu uma dose elevada de estrogénios e progesterona nas suas pílulas contraceptivas durante mais de vinte anos tem insuficiência renal ou cancro da mama e recebe um tipo de quimioterapia semelhante ao administrado às vitimas de Chernobyl; um casal heterossexual recorre à inseminação in vitro ao descobrir que o macho do casal não produz espermatozóides ágeis o suficiente para fertilizar o óvulo da sua parceira, devido ao consumo elevado de tabaco e álcool…

Tudo isto indica que as diversas identidades sexuais, os vários modelos de fazer sexo e produzir prazer, as várias formas de expressar o género coexistem com um ‘devir-comum’  das tecnologias que produzem o género, sexo e sexualidade.

Resistências, mutações…

Mas um processo de desconstrução e construção de género a que a Judith Butler chamou ‘undoing gender’ está sempre já a ter lugar. Desmantelar estes programas de género requere um conjunto de operações de desnaturalização e desidentificação. Estes ocorrem, por exemplo, na práticas de ‘drag king’ e de ‘auto-experimentações hormonais’, que são formas concretas de ‘desinstalar o género’.

No ano 2000, estabelecendo de algum modo o nosso futuro corporal no novo milénio, o cirurgião escocês Robert Smith tornou-se objecto de uma polémica bioética internacional ao aceitar a petição de Gregg Furth, um paciente que solicitou a amputação das suas pernas saudáveis. Ele sofria do que é hoje conhecido como ‘Transtorno de Identidade de Integridade Corporal’ (‘Body Integrity Identity Disorder’ – BIID), uma doença de má identificação da integração corporal real e imaginada. Furth sentia o seu corpo bípede como contrário ao que imaginava ser a sua imagem corporal ideal. Embora a comité bioético tenha impedido a cirurgia, Smith confirmou que tinha amputado várias pacientes com patologias semelhantes de ‘dismorfismo corporal’ entre 1993 e 1997. Para algumas, nostálgicas do corpo moderno, estas cirurgias são consideradas terrivelmente aberrante. Mas quem se atreveria a atirar a primeira pedra a Furth: candidatos a lifting e lipoaspirações, pessoas com pacemakers, consumidoras ‘da pílula’, viciados em Prozac, Tranquimazin ou cocaína, escravos do regime hipocalórico, consumidores de Viagra, ou aquelas que passam uma média de oito horas por dia ligadas a próteses informatico-mediáticas, i.e. computadores, televisão, jogos na net?

Furth não é um louco isolado que se quer submeter, sob condições medicamente controladas, a um bacanal cirúrgico digno do Massacre no Texas. Pelo contrário, é um dos conhecidos criadores de um conjunto de movimentos micropolíticos que exigem o direito a redefinir o corpo vivo fora das restrições normativas da sociedade hegemónica aos legítimos corpos capacitados. (…) O projecto BIID resiste aos imperativos da normalização corporal e traz à luz agressivamente a lei cultural e política construída sobre o binário deficiência/normalidade.

Os bio-homens e bio-mulheres (indistintamente hetero e homossexuais), mas também os transexuais que têm acesso a técnicas legais, cirúrgicas e endocrinológicas  para produzir a sua identidade, não simples classes económicas no sentido marxista do termo, mas autênticas fáricas farmacopornopolíticas. Estes sujeitos são ao mesmo tempo matéria-prima farmacopornopolítica e produtores (raramente proprietários), bem como consumidores dos bio-códigos de género. [Algumas] activistas rejeitam a psiquiatrização da transexualidade (até agora definida, de forma semelhante à BIID, como ‘disforia de género’) e defendem o direito a definir o seu próprio sexo, reapropriando técnicas cirúrgicas e hormonais para se construírem a si próprias, em grande desacordo com códigos normativos de masculinidade e feminilidade. Elas produzem sexos auto-concebidos, com um design próprio.

Hackers usam a internet e programas ‘copyleft’ para a distribuição horizontal e gratuita de ferramentas de informação. Afirmam que o movimento social que lideram está ao alcance de toda a gente, via internet. O movimento copyleft farmacopornográfico tem uma plataforma de tecno-vida bem mais acessível que a internet: o corpo. Mas não o corpo nu, ou o corpo como natureza imutável, mas o corpo da tecno-vida como um arquivo bio-político e prótese cultural. A tua memória, o teu desejo, a tua sensibilidade, a tua pele, a tua pila, o teu dildo, o teu sangue, o teu esperma, a tua vulva, as tuas gónadas, etc. são as ferramentas de uma possível revolução de género-copyleft. As tácticas de género-copyleft devem ser subtis mas determinantes: o futuro do sexo e do código-aberto de género da espécie está em risco. Não deveria haver um único nome que pudesse ser patenteado. Será nossa responsabilidade remover o código, abrir práticas políticas, multiplicar possibilidades. Este movimento – que já começou – pode ser chamado Pós-porno, Free Fuckware, Bodypunk, Opengender, Fuckyourfather, PenetratedState, TotalDrugs, PornoTerror, Analinflaction, TechnoPriapismUniversalUnited…

Ao recusar volntariamente identidades políticas marginais ou ao escolher o seu próprio estatuto sexo-político estes movimentos de auto-determinação corporal mostram que o ‘corpo normal’ desejado é o efeito de violentos dispositivos de representação, controlo e produção cultural. O que os movimentos BIID, deficiente ou transgénero nos ensinam é que já não é uma questão de escolher entre o corpo natural  e o corpo tecno. Não, agora a questão é se queremos ser consumidoras dóceis de técnicas bio-políticas e produtoras cúmplices dos nossos próprios corpos, ou, alternativamente, se queremos  tornar-nos conscientes do processos tecnológicos dos quais somos feitas. De qualquer forma, temos de arriscar colectivamente inventando novas formas de instalar e reinstalar subjectividade.

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Trad. do inglês por Helena Lopes Braga e Pedro Feijó

(publicado na zine Lóbula #1, 2015)

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This entry was posted on 30/10/2015 by in PT and tagged .
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