MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Traição

iemanjá

Não se enganem, isto não é meramente uma discussão de dívida histórica ao nível do tumblr. É uma escolha entre os meus antepassados que comercializaram escravos em navios negreiros e a deusa que foi obrigada a carregar os navios com o seu povo lá dentro contra a sua vontade.


 

Ontem foi o meu dia favorito do ano. Independentemente dos discursos sobre o Halloween ser importado dos Estados Unidos, o Halloween é a minha data favorita do ano. É óbvio que apesar da sua forma mais recente ser realmente importada, o Halloween é celebrado pela Europa fora de maneiras diferentes mas todas próximas. Não é por acaso que o Halloween acontece quando o Sol está em Escorpião, na altura da morte da natureza. Não é por acaso que os católicos celebram a 1 de Novembro o dia de todos os santos, não os santos canonizados pela Igreja mas o conjunto de todas as boas almas que algum dia morreram e que constituem o corpo espiritual de bondade da Igreja.

Os celtas acreditavam que nesta noite, no Samhain, os mortos vagueavam pelo nosso mundo porque o véu entre os mundos estava fino. Lembro-me de ler um dia que é uma possibilidade que o ritual de “doçura ou travessura” tenha origem na tradição celta de usar máscaras para que, com toda a gente de cara tapada, os mortos não tivessem vergonha de andar pela rua e ir a casa das suas pessoas amadas pedir comida.

Independentemente de pormenores teológicos, esta é uma data para honrar os mortos. E foi ontem, no meu dia favorito do ano, que ao olhar para a minha estátua da Iemanjá, me apercebi de que eu não posso cultuar os meus antepassados.

A minha relação com a Iemanjá é uma relação tensa, mas antes de que me acusem de apropriação cultural digo em minha defesa que foi ela que me procurou. A Iemenjá tem agora nos meus pesadelos crónicos o papel que a Virgem Maria teve nos meus tempos de católico. É a única coisa que me deixa dormir. É a única coisa que me impede de ser, mais uma vez, dilacerado e torturado no fim dos meus pesadelos. É quem chega e faz tudo ficar bem.

Depois do meu primeiro pesadelo em que a Iemanjá apareceu numa visão caleidoscópica de azúis, eu sabia que nós tínhamos uma relação. Uma relação daquelas que eu tenho com divindades, não muito canónica, mas uma relação. Trouxeram-me, há um mês, uma estátua dela do Brasil que eu pus no lugar mais visível da casa. Eu gosto da Iemanjá mas a nossa relação é tensa.

Quando estabelecemos uma relação com uma divindade, quando adoramos o Halloween, ou Samhain, aquilo que percebemos é que num mundo espiritual a História não faz sentido. A História não é conceptualizável como é pelas correntes académicas mainstream porque as  fronteiras do tempo se esbatem. Quantos cultos esperam ansiosamento o apocalipse quando o apocalipse está a acontecer desde bem antes da humanidade e vai continuar a acontecer até bem depois do seu desaparecimento?

Ontem, ao pensar em prestar culto aos meus antepassados, em como podia ir ao cemitério buscar terra, preparar um altar, cozinhar oferendas, apercebi-me do olhar de reprovação da estátua da Iemanjá.

As divindades que me atraem são as que têm força porque sobreviveram aos meus antepassados.

Não se enganem, isto não é meramente uma discussão de dívida histórica ao nível do tumblr. É uma escolha entre os meus antepassados que comercializaram escravos em navios negreiros e a deusa que foi obrigada a carregar os navios com o seu povo lá dentro contra a sua vontade.

Não é uma escolha meramente conceptual, é uma escolha real, dramática. E depois de pensar toda a noite no quão desiludidos eles devem estar, eu decidi renegar o culto dos meus antepassados. Isto porque o culto dos antepassados só faz sentido quando nos identificamos com eles, quando eles representam aquilo que amamos, quando numa visão romântica acreditamos que a sociedade estava melhor antes e que eles representam aspirações mais altas.

Mas quando eu olho para a minha estátua da Iemanjá, com um rosto forte, quase bitchy, encerrando em si toda a vida e toda a crueldade do mar, eu sei de que lado estou. E prefiro estar deste lado, mesmo que perca a melhor parte do Samhain.

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This entry was posted on 01/11/2015 by in PT, Sem categoria and tagged , , , , , .
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