MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

A noite mais longa

 

lixívia

«Ainda hoje não consigo controlar a raiva quando oiço pessoas a falar sobre suicidas e a impor a dicotomia entre os suicidas a sério e os que querem chamar à atenção. Eu, nesse caso, não fui um suicida “a sério”. Mas também não fui um suicida que procurasse chamar à atenção.»

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“Mamã, mamã, fiz uma grande  asneira”

O conceito do Yule, a festa pagã do solstício, é fácil de compreender, mas eu só consegui uma compreensão emocional e afetiva dele na noite da minha tentativa de suicídio.

A estória da minha tentativa de suicídio não tem nada de especial. É daquelas estórias batidas para os outros e únicas para nós. Na minha família, em que se fala sobre tudo até de maneira excessiva, tornou-se um tabú. Ainda hoje não consigo controlar a raiva quando oiço pessoas a falar sobre suicidas e a impor a dicotomia entre os suicidas a sério e os que querem chamar à atenção. Eu, nesse caso, não fui um suicida “a sério”. Mas também não fui um suicida que procurasse chamar à atenção. Por ter vivido rodeado de amigos e familiares que falavam sobre a possibilidade de suicídio em alturas de sofrimento, por ter visto alguma da minha família direta tentar-se suicidar, por ter amigos com as mais diversas estruturas e necessidades mentais que também se tentaram suicidar e por, na altura, ser um fã de romantismo, a minha tentativa de suicídio não foi mais do que uma tentativa de legitimização da minha dor. Até àquele momento eu tinha uma crença enraizada de que sem uma tentativa de suicídio, sem ideações suicidas, a minha dor não podia ser verdadeira. Quando eu levei a lixívia à boca e a senti queimar por dentro eu não queria morrer. Queria provar a mim e a um mundo hostil que a minha dor era verdadeira, era digna de ser ouvida. Se tivermos de entrar nas caixinhas de quem fala sobre suicídio, queria muito mais chamar à atenção de mim mesmo do que de qualquer outra pessoa.

A minha mãe estava a dormir na sala. A partir do momento em que bebi a lixívia e fui ter com ela foi como se já não estivesse dentro de mim e fosse outro corpo a mover-se. Ela não ficou zangada comigo. Ficou em pânico, ligou para o hospital, perguntaram a marca da lixívia, a composição e disseram que a lavagem ao estômago podia ser feita em casa. Se a tentativa de suicídio não teve um efeito catártico mas de autoafirmação, a lavagem ao estômago compensou. Durante horas a minha mãe obrigou-me a beber litros de água seguidos de colheres de azeite para eu vomitar. Vomitei a lixívia, provavelmente vomitei parte da minha alma também. Não me lembro do tempo, quase como se estivesse bêbedo, só me lembro da minha mãe me fazer beber cinco litros de água antes de eu conseguir vomitar a primeira vez e depois de ficar preso num loop que podia ter demorado anos. Vomita, respira, bebe, vomita, na típica estrutura tripartida que o ocultismo atribui a qualquer evento cíclico.

Quando tudo acabou, apressei-me a ligar o telemóvel e a contar aos meus amigos o quão verdadeira era a minha dor. Tudo me desiludiu, eu continuava sem estar convencido, eles não pareciam muito também. É claro que o problema estava no facto de eu achar que podia haver dor não verdadeira, ou que tinha de cumprir certos requisitos para poder sofrer.

A pior parte foi a procissão de pessoas da minha família direta a virem falar comigo depois. Lágrimas, terror puro nos olhos, dor alquimicamente destilada. Foi esse o momento em que prometi a mim mesmo que o meu flirt com a morte terminava naquele dia.

Depois de tudo, um amigo da minha mãe que cuidou de mim em momentos difíceis para mim, quase como um terceiro pai, convidou-me para tomar chá. Professor de biologia com um fascínio pelo esotérico, uma pessoa que na margem da sociedade cultivou uma imagem idealizada de gentleman que lhe dá um ar pitoresco absolutamente inesquecível, sentou-se comigo, um miúdo de 16 anos assustado, em frente ao chá numa casa de chás pequena e bonita e disse-me “Sabes que dia é hoje?”, eu disse que não sabia, “Hoje é o solstício de inverno, os dias vão começar a aumentar”. Não foi preciso que ele dissesse mais nada.

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This entry was posted on 21/12/2015 by in PT and tagged , , , , .
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