MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Sobrevivi àquela altura do ano

Sobrevivi ao jantar do dia 24.

É dia 25, fim da tarde. As ansiedades já passaram. Esta que é uma das ocasiões mais tensas do ano, já (quase) passou e eu sobrevivi.

Sabes que mais? Não foi tão mau quanto eu esperava. Não foi propriamente feliz, teve os seus momentos ofensivos, teve os seus momentos enfadonhos, teve os seus momentos esquisitos-comó-raio-quando-é-que-isto-acaba. Teve conteúdo, teve mais conteúdo e food-for-thought do que noutros anos. Estive cinco anos sem falar com o meu pai, e este foi o primeiro (jantar de) natal com ele, e a companheira, desde que aceitei que voltássemos a falar, no verão passado. A minha irmã também foi, caso contrário eu não teria ido. Apesar das minhas óbvias reservas iniciais ao ver um tipo claramente identificável somo social democrata, o filho da companheira do meu pai, um PSD da minha idade, e a sua namorada, não foram companhia desagradável. Encontrar os pontos em comum: vinho, bom vinho, tópicos de conversa sem potencial destruidor de convívio, música (e até lhe ensinei a mexer os dedos num teclado).

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“O que é estudos de género?”

Sim, houve comentários racistas. Sim, houve comentários classistas. Sim, houve alguns comentários homofóbicos. Sim, houve gordofobia e fat shaming. Sim, o que houve mais foram comentários sexistas, a misoginia sente-se no ar de várias formas e em vários gestos e comentários aparentemente inofensivos e cujos alvos os recebem de bom grado, participando pro-activamente em conversas sobre o que as mulheres são, o que as mulheres querem, como as mulheres agem e porquê. Eu respondi ocasionalmente, mas sou catalogada como “a excepção”, e basicamente ignorada se insistir, mesmo quando digo que há milhares de pessoas a partilhar muito daquilo que defendo. Parte frustrante. Ver as pessoas a dizer disparates tão convictamente e sem quererem pensar muito nas coisas. (E claro, não se dizer nada sobre os homens, que a masculinidade é inata, isenta de culpas ou moralismos, e inquestionável, a não ser quando está em risco momentaneamente por se gostar de alguma coisa “de mulher”, que rotula imediatamente “gay”)

Há sempre esta coisa idadista, paternalista e condescente de se dar opiniões não requisitadas sobre xs outrxs, as suas vidas, as suas opiniões políticas, as suas escolhas, os seus corpos, a sua imagem. Isto vem com estas alturas, já o sabemos, estar com “a família” significa isto mesmo. E significa chatearmo-nos, sofrermos, engolir sapos e sofrermos ainda mais por os termos engolido. Mas no meio disto vai havendo coisas boas e inesperadas. (Não, não vou falar dos presentes e do microfone que eu queria e precisava e recebi e me deixou contente) Bonito foi partilhar a pausa para cigarro com o meu pai a querer dizer-me algumas coisas e não saber bem como o fazer, nem o dizer da melhor maneira – como se eu dissesse alguma coisa da melhor maneira. Entre essas coisas saíram considerações sobre o que foram os outros 31 anos da minha vida (e antes dela). Saíram perspectivas novas sobre coisas que aconteceram. Saíram pedidos de desculpa. Vêm substituir verdades que eu tinha? Vêm fazer-me esquecer coisas? Vêm criar uma nova dinâmica relacional com o meu pai de repente? Não. São perspectivas novas a ter em conta. Sim, as pessoas mudam, tal como eu também mudo/ei. E receberei a mudança, se ela se confirmar. Sem esquecer.

Como se isto não fosse bastante para digerir nos próximos tempos, nessa pausa para cigarro saíram ainda frases como “respeito e aceito as tuas opiniões”, “não tenho nada a ver com o teu estilo de vida ou com as tuas preferências sexuais”, “como tu vives a tua vida é contigo e eu aceito isso” – ainda que usando o termo comparativo do “muitas pessoas não aceitariam”, “o que tu partilhas no facebook às vezes…”, “feminismo e vida sexual”… E mais tarde, de novo à mesa, quando houve a típica pergunta “quando é que trazes o teu namorado?” eu respondi, sem vergonha nem medo, “qual delxs?” e, para minha surpresa, não houve comentários polyfóbicos nem sequer moralistas; apenas o convite aberto para se eu quiser trazer alguma(s) das minhas pessoas.

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Não precisei de vir embora, ou de ir à casa-de-banho chorar. Nem sequer chorei quando saí de lá ou quando cheguei a casa – só mesmo agora que escrevi este texto. Fiquei, fui ficando. E o tempo passou e não foi muito mau.

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2 comments on “Sobrevivi àquela altura do ano

  1. platypuss38
    26/01/2016

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  2. Pingback: é natal | MODO DE VOLAR

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This entry was posted on 25/12/2015 by in PT and tagged , , .
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