MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Repitam a seguir a mim

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Pergunto-me se os meus pensamentos que me estão a consumir só vêm porque estou num templo à ciência. Pergunto-me se a vergonha alheia que sinto se assemelha à vergonha de quem blasfema dentro da igreja. O cheiro do álcool misturado com os registos das impedâncias, as medições de tocas, o frio dos elétrodos. Este lugar é consagrado à ciência e são raros os dias em que eu me dou bem com blasfémias em lugares santos.

Mas não é isso, pois não?

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Aconteceu hoje enquanto manuseava elétrodos e preparava o gel de condutividade para pôr a máquina de eletroencefalografia a funcionar. Como de costume, estávamos a falar de ciência com a participante.Falámos da fertilidade do ser humano, da ética em investigação médica que recorra ao uso de animais, de cognição e linguagem. De repente, em resposta a um comentário que eu fiz sobre problemas de tradução de línguas com certas características, a minha nova colega, especialista em EEG e que eu ajudo na preparação de estudos, falou-me de um homem em Itália que traduz a bíblia  sem interpretação religiosa e que acredita que Deus, ou a forma plural usada pelos hebreus para se referirem a Deus, era na verdade uma raça de extraterrestres.

Sorriso condescendente.

“Não, a sério.”

“Okay, okay”. Sorriso condescendente.

A ideia era que o sorriso passasse despercebido, mas claro que não passou. Se tivesse passado, ela não teria  insistido.

Este sorriso não me é estranho, é o sorriso que eu uso em situações semelhantes.. Alguém me diz uma coisa que me parece excessivamente tola, e eu uso-o para me defender.

Ao mesmo tempo, formou-se em mim uma imagem de um campo de concentração algures no médio oriente antigo, imagens de um filme de retroficção científica em que extraterrestres exploravam os nossos antepassados. Formaram-se imagens atraentes, que apelam à minha memória cultural do holocausto. Tentadoras porque fazem de mim uma vítima e me ilibam do papel de perpetuador.

“Porque o verbo traduzido como “criar” na bíblia é, no original, alterar. Faz referência a experiências genéticas.”

Pronto, that’s it. Nem todas as formas de conhecimento são legítimas. Repitam a seguir a mim. Nem todas as formas de conhecimento são legítimas.

Não importa que eu diga isso quando estou a fazer astrologia  só para me justificar. Não importa que eu use isso para justificar as minhas aspirações místicas e religiosas.. Olhar para o movimento das esferas superiores não pode ser tão tolo como isto.

Para.

Pergunto-me se os meus pensamentos que me estão a consumir só vêm porque estou num templo à ciência. Pergunto-me se a vergonha alheia que sinto se assemelha à vergonha de quem blasfema dentro da igreja. O cheiro do álcool misturado com os registos das impedâncias, as medições de tocas, o frio dos elétrodos. Este lugar é consagrado à ciência e são raros os dias em que eu me dou bem com blasfémias em lugares santos.

Mas não é isso, pois não?

A ciência não é uma deusa, pelo menos não a tua deusa. E se for uma deusa, é uma assassina de deuses. Uma deusa ciumenta, qual Yaweh no deserto. Não tenho pudor em blasfemar nos sítios sagrados da ciência, dá-me pica.

O problema és tu.

O problema é que fora do microcosmo confortável em que alimentas as tuas crenças de estimação com desculpas relativistas, quem acredita é burro e quem não acredita é inteligente.

É por isso que a ciência ganha, porque ela te seduz a acreditares na sua superioridade epistemológica, mesmo quando já a abandonaste e não queres voltar.

Nem todas as formas de conhecimento são igualmente válidas, repitam a seguir a mim.

O problema é que não exiges a um cético que se justifique, ele é, por defeito, inteligente. O problema é que os teus exercícios relativistas são uma defesa masturbatória  porque estás farto de fugir dos deuses e dos astros que te chamam mas não queres abdicar de ser o mais  inteligente de todos.

O sorriso desaparece e eu olho a ciência e o seu canto doce nos olhos, desafiante.

“Sim, tens razão, sempre me fez confusão que Deus na bíblia se refira a si mesmo no plural, não faz grande sentido.”

Foda-se. Não acredito que disse isto em frente à participante. Doutorada pelo IMM. Engenharia médica. Foda-se.

A cara da minha nova colega está mais triunfante agora, ela continua a prestar culto à deusa ciência, mas desafia-a com muito mais coragem nos momentos que importam.

Enquanto dispara mais gel nos elétrodos para aumentar a condutividade ela diz:

“É por isso que no antigo testamento Deus era tão violento, eles  eram uma sociedade bélica.”

“Eles?”

“Os extraterrestres.”

Nesta altura já entrei no jogo. O universo em que extraterrestres estão a adulterar geneticamente proto-humanos por razões egoístas torna-se cada vez mais interessante. Masturba o meu ego, acalma os meus complexos de culpa de esquerda, acaricia a minha white fragility até eu estar a ronronar. Quão bom seria que na luta entre o nós e os outros, a humanidade fosse o nós e os outros fossem genuinamente maus, monstruosos, platonicamente maléficos, opressores, sádicos.

Não acredito em aliens que nos alteraram geneticamente.

Mas por aqueles breves instantes, acreditar nisso é validar que todos os conhecimentos e crenças têm um lugar legítimo. É insistir que os meus deuses não são necessariamente melhores do que os de ninguém, mas que são legítimos. É abraçar a lógica louca que me permite viver no mundo em que eu quero viver e acreditar no que para mim é obviamente real. Seria, na famosa expressão de Carl Sagan, deixar cair o cérebro. E porra, soube bem.

Foi um momento lindo, libertador, nós a prepararmos o nosso estudo científico, pagos pela FCT, e a discutir desavergonhadamente em frente à participante a possibilidade de a bíblia contar o nosso passado em que fomos escravizados e geneticamente modificados por extraterrestres.

Isto é história. Repitam a seguir a mim.

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This entry was posted on 15/02/2016 by in PT, Sem categoria and tagged , , , .
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