MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

Carta a um Chamilly [fui tua amante]

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Vieste pouco devagar, ocupaste lugar e foste-te tornando origem de tantos ruídos em mim. Fui tua amante sem o querer ser, recusando esse lugar comum que se impõe pelas inevitabilidades. Acreditei noutras formas de estar, noutras formas de sentir, de partilhar, noutras formas de amar. Quis construir o nosso mundinho, duas pessoas, dentro de outros com outras e em ligação com outros e com outras. Julguei serem vontades partilhadas, iríamos onde quiséssemos, quando quiséssemos, enquanto quiséssemos.

A existência de outra pessoa não me incomodava. A existência de outra pessoa não me incomodava, senão pelo teu mal estar e incapacidade de uma comunicação clara, honesta, sem subterfúgios; logo geradoras de outros constrangimentos: tempos, locais, disponibilidades, sociabilidades.

“Não és minha amante, és outra coisa. Gosto de ti.”, como se não se gostasse das amantes que são, antes de mais, pessoas com quem se ama, pessoas que se ama.

“Não te vejo como amante.”, como se houvesse uma forma encerrada de sentir e de estar com alguém, dentro de paradigmas de comportamentos que abominamos preconceituosamente.

“Não és minha amante.”, tentando assegurar-te a ti, constantemente, que não fazias o mesmo que “os outros”, essa massa acéfala e de que queres distanciar-te – sem ver que todas somos as outras, e que as outras somos nós também.

“És importante para mim”, como se o não fosse qualquer pessoa que faz parte dos nossos círculos mais próximos, com quem partilhamos pedaços de vida: conversas, muitas, e cafés, projectos, cigarros, jantares, copos, noites.

Negaste sempre as dinâmicas de poder presentes (e que também eu não me esforcei por contrariar), recusando as evidências que nos toldaram a relação. [Porque existiu uma relação, porque não é preciso estar livre, romântica e sexualmente interessada em alguém e ser correspondida e afirmar que se vai estar ou que se está numa relação para ela existir, para o que se passa entre duas ou mais pessoas ser uma relação.]

Encerrado no teu umbiguismo sofredor, deixando demasiados medos tomar rédeas do teu corpo (que nos queria, porque tu nos quiseste), não quiseste ver que as tuas inseguranças e indecisões se sobrepuseram às nossas (às de outra pessoa, e às minhas, “a amante”), que as tuas vontades dominaram as nossas, que enquanto não sabias (ou não querias saber) o que querias havia duas pessoas com a vida pausada e mergulhadas em dores múltiplas, que inevitavelmente se sentiam desprezadas. Era para ti uma afronta que eu referrise as dinâmicas presentes- como se te revisses demasiado em algo que de forma utópica acreditavas combater (quando nem sequer te dispões a utilizar a linguagem, fonte de poder e dominação, de forma política).

Mas não te odeio, porque amei contigo.

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This entry was posted on 10/09/2016 by in Sem categoria.
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