MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

é natal

Todos os anos há dias maus. Todos os anos há dias que preferíamos que não existissem. Em que temos que cumprir protocolos, que nos prejudicam a saúde mental. Que nos causam semanas de ansiedade, com o que isso acarreta de problemas de estômago, noites mal dormidas, dores de cabeça, irritabilidade, depressão. Tudo porque está a aproximar-se aquela altura em que *temos de* ir visitar a família, passar umas horas com a família.

Saí da minha terra há 8 anos e 3 meses. Quando o digo parece tão pouco, mas é uma vida, era outra vida, e tantas outras vidas aconteceram nestes mais de 8 anos.

A terra onde nasci é pequena, sempre a senti como pequena e, mais ainda, nunca a senti como minha. Nunca me senti confortável nas suas ruas, praças e mil igrejas. Toda a gente se conhece, seja por umas vias ou por outras. “Agora já não é assim. Braga cresceu muito.” Sim, cresceu, vejo-o o sinto-o. Não gosto de como está crescida. Não gosto de ver que as lojas são ainda mais iguais, que edifícios lindos onde moravam pessoas, onde se faziam coisas, estão desfeitos ou foram comprados e recuperados luxuosamente por uma marca qualquer. Não gosto de ver pessoas, mais pessoas, cada vez mais pessoas, nas esplanadas iguais às de todo o mundo, vestidas e penteadas da mesma maneira.

Em Braga sentia-me reprimida. Fui puta, fui lésbica, fui drogada, fui namorada do tal que era tal, fui comida pelo tal. Fui filha do tal, fui sobrinha do tal. Fui neta do tal. Não sei se algum dia fui eu. “Já não é assim”. Talvez não. Talvez sim. Não me interessa. Sofri demasiado em Braga, e sofri demasiado num sítio em particular em Braga: a minha casa.

Gosto de Lisboa. Vivo confortável em Lisboa. Saio à rua tranquila, anónima, com a roupa que quero, o cabelo que quero, os piercings que quero, as tatuagens à mostra. Não tenho que me preocupar com o que faço quando estou na rua porque sei que ninguém que tenha potencial simbólico para me julgar e magoar vai ouvir boatos sobre o que eu ando a fazer.

Sim, lido com assédio porque sou mulher cis, jovem, *capaz*, dentro dos limites socialmente aceitáveis do que é ser desejada. E sim, em determinados locais/circuitos sou julgada por vestir determinadas coisas, por ter tatuagens, por estar com uma mulher, por estar com um homem, etc, etc. Lisboa não é perfeita. Deusa, se as rendas das casas fossem acessíveis a pessoas normais, e se extinguíssemos o machismo, racismo, homo, bi e transfobia talvez fosse. Mas até isso em Braga é agravado.

Em Lisboa vou tendo casas. Já tive umas quantas (ahem, já vivi em 10 casas diferentes cá, para ser mais precisa). E tenho pessoas que são família. Que estão quando eu preciso, que estão quando eu não aguento, que vêm quando eu não consigo sair. Com quem me sinto confortável, com quem não preciso de calar, de fingir, de conter, de reagir. Que me abraçam sem eu pedir, e em cujos abraços eu me sinto dentro dum escudo onde nada de mau pode acontecer.

Visitar Braga é sempre visitar o passado. E doi. E custa. Exige coragem, esforço, estômago, tripas e coração. Exige também que eu me mantenha em comunicação com as minhas pessoas. Senão morro.

Há um ano atrás aceitei retomar contacto com o meu pai, depois de quase 6 anos sem falarmos. [Deixei de falar com ele não só por causa das terríveis atitudes dele durante o demasiado longo processo de divórcio, mas porque ele me culpava por o divórcio ter acontecido, e porque da última vez que fui à casa que tinha sido minha buscar coisas, fui mal tratada e insultada por causa do meu aspecto físico] Dizia eu que há um ano fui lá passar a véspera de natal, com a minha irmã, e foi assim.

Depois disso estive com ele mais duas vezes (páscoa e verão) e foram-se tornando cada vez menos felizes – se é que aquela noite foi algo além de estranha. No fim-de-semana passado eu e a minha irmã fomos de novo lá passar a véspera de natal.

Há um momento em que um agressor tira todas as dúvidas a seu respeito. Há um dia em que um agressor passa uma barreira e é nesse dia que tu percebes que a barreira não existe. Que nunca existiu. Que das palavras, dos insultos, das piadas, das bocas, dos gritos, das ameaças, da chantagem psicológica, da pressão, até à agressão não vai distância nenhuma. E nesse momento ficas em choque.

Nesse momento percebes que aquela pessoa sempre foi um agressor, e que tu ignoravas ou desculpavas os sinais. Quando eu era adolescente e as pessoas percebiam que havia coisas em casa que não estavam bem, perguntavam-me se o meu pai era violento. Eu respondia que ele nunca tinha batido à minha mãe. Fui crescendo e gradualmente alterando a minha resposta para dizer, consoante as circunstâncias, que ele nunca tinha batido à minha mãe, mas que me tinha batido muitas vezes quando eu era criança, que matou um gato à minha frente apesar dos meus gritos, e que maltratava o meu cão apesar dos meus gritos, e que ele era agressivo e violento na forma como falava sempre que havia discussões. Desmascarei amantes, mentiras. Antes, as circunstâncias fizeram-me fazê-lo.
Quando finalmente a minha mãe saiu de casa, demasiado tarde para ela, para mim e para a minha irmã, perguntavam-me novamente o mesmo. A minha resposta era “não fisicamente, mas ele é uma pessoa agressiva e violenta no tratamento com as pessoas”.

Na noite de natal deste ano o meu pai passou *a linha*

Quando a polícia finalmente chegou (mais de uma hora depois do 1º telefonema – já estavamos 5 pessoas na rua, e ele sozinho fechado dentro de casa), perguntaram se ele tinha bebido. A (que nessa noite se tornou ex)companheira disse “não”, eu e a minha irmã dissemos “sim, embora ele costume beber frequentemente”. Os agentes perguntaram de seguida se ele tinha problemas psicológicos. A ex-companheira disse “não” e eu e a minha irmã respondemos ao mesmo tempo “sim”. Os agentes perguntaram se ele era acompanhado ou recebia algum tipo de tratamento e nós dissemos “ele recusa ir a médicxs porque nunca reconheceu que tem problemas”. Perguntaram “ele costuma ser violento?” A ex-companheira disse prontamente “não, foi a primeira vez que o vi assim”, eu disse “sim, ele sempre foi violento.”

Há estes momentos em percebemos que as pessoas não detetam violência a menos que esta seja física. Que uma pessoa que viveu com o meu pai nos últimos 8 anos, como a minha mãe, que viveu com ele 25, é capaz de dizer que ele não é uma pessoa violenta. Porque nunca lhe bateu. A ausência de carinho, a frieza, o tratamento de silêncio, o desdém, os insultos, as mentiras, a chantagem, a pressão psicológica, a escravatura doméstica, a dependência financeira (porque ele só tem dinheiro para as coisas dele, nunca para as comuns, nem para as despesas das filhas), nada disso é considerado violência.

E há estes momentos em que tu sentes que o que aconteceu foi um choque, sim, mas que talvez o mais chocante tenha sido perceber que não existe barreira ou degrau nenhum que se salta quando a violência passa a física. Que aquilo foi uma cena igual a tantas outras a que eu assisti, em que muitas vezes eu era o alvo, e que levantar um braço, jogar com o peso do corpo, ou agarrar numa garrafa de champagne para a atirar não fazem grande diferença.

Eu não fui alvo. A minha irmã não foi alvo. Nós fomos “bem tratadas”. Pela primeira vez em 33 anos quase não houve bullying contra mim, não ouvi um comentário sobre o meu peso, o meu corpo, a minha vida (apenas um sobre o meu corte de cabelo), pelo contrário, eu fui utilizada como arma de bullying para outras pessoas. O meu pai deu-me o presente que eu quis, e deu-me mais presentes ainda.

E agora? O que faço com os presentes que agora sei que foram oferecidos por um agressor? Sempre que olho para eles lembro-me e choro. Sou filha dum agressor. Cresci com um agressor. Fui agredida demasiadas vezes. Eu, a minha mãe mais ainda (porque foi privada de ter vida própria durante mais de 25 anos), e também a minha irmã. E foi preciso vê-lo ser fisicamente agressivo para me aperceber disto.

Re-significar. Olhar para os presentes e usá-los tantas vezes até me esquecer. Porque preciso deles. Vou esquecer-me algum dia? Devia deitá-los fora e esquecer que esta pessoa existe? Não consigo.

E agora, o que faço quando tenho flashes do passado e vejo exactamente a mesma pessoa que vi há umas noites atrás?

Ele não estava fora dele, nem estava maluco como disse a ex-companheira à polícia. Ele estava perfeitamente dentro da normalidade dele. Aquilo foi uma ocasião como tantas outras em que ele se lembrou de iniciar uma discussão por um motivo estúpido qualquer. Não, também não é um motivo estúpido qualquer. É machismo. É posse machista. As discussões sempre estiveram relacionadas com as pessoas próximas dele, que ele entende que são sua propriedade. A mulher é propriedade e não pode fazer nada por si, ou pelas suas outras pessoas – aliás, o ideal é que não tenha outras pessoas. A filha é propriedade e não pode andar fora de casa, nem ter namorados ou vida própria – aliás, deitar abaixo com insultos e críticas ao aspecto físico serve para danificar a auto-estima até achares que não mereces ninguém e ficares em casa sem a mínima confiança em ti. [Só que ele não sabia que tem um efeito perverso: quando pensas tão pouco de ti, cada migalha que te dão é o mundo, e cada pessoa que te elogia merece tudo de ti] O que acontece quando se tem uma mulher com um filho adulto? O filho interfere na relação de poder que o homem tem com a mulher. Há uma competição. O homem tem que ter toda a atenção e dedicação da mulher.

E agora, o que faço quando tenho flashes do passado e vejo exactamente a mesma pessoa que vi há umas noites atrás?

Dizem que as pessoas mudam. Eu acho que mudei muito. Eu acreditei por algum tempo que o meu pai pudesse ter mudado. É mentira. Não mudou. Será que as pessoas nunca mudam? Que há sempre um fundo que foi moldado em nós e não nos deixa mudar e vem ao de cima quando menos esperarmos ou então está presente tão frequentemente que nem reparamos?

papel

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This entry was posted on 27/12/2016 by in PT, Sem categoria.
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