MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

nove meses

preâmbulo

Voltei hoje à Biblioteca Nacional ao fim de nove (9) meses de bloqueios.

Eu sei que o mundo tem mais coisas em que pensar, mas hoje estou um bocadinho orgulhosa de mim. Não foi fácil, e ao mesmo tempo foi muito familiar. O tempo não passa por ali. As caras são as mesmas, está tudo no mesmo sítio. Como se estes 9 meses não tivessem existido. As funcionárias dos reservados receberam-me como sempre, como se eu lá tivesse estado na semana passada. Os funcionários do bar trataram-me como se me conhecessem vagamente, mas não tanto como a familiaridade com que me tratavam quando eu lá estava todos os dias.

Estar ali sentada a trabalhar. Como sempre. Envolvida na investigação, consumida por ela e consumindo-a como um lenitivo para o meu estado de espírito. Trabalhar para esquecer. Trabalhar para ocupar.

ls

o que eu quero?

Já não quero morrer todos os dias. Ainda choro todos os dias, ainda quero morrer de vez em quando. Mas já não quero morrer todos os dias. E às vezes há um dia em que não choro.

Estou a tentar cuidar de mim, a tentar curar. É difícil.

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nove meses. Como é que foi em Abril que lá fui pela última vez? Como é que passou tanto tempo? No início eram só uns dias, depois só umas semanas. Depois percebi que estava sem força para conseguir lá ir. E eram só mais umas semanas, e entretanto foram passando meses e eu fui-me agarrando com toda a força às pequeninas coisas que ainda me faziam bem. Como cantar o meu repertório de eleição. Como passar tempo com pessoas que amo. Como estar numa relação com uma pessoa especial. Como cantar no meu coro. Como comer sushi. Como ir à praia. Como o ativismo.

Eu sabia que ia passar, que era um estado de espírito temporário. Ia passar quando eu mudasse de casa e fosse viver com aquela pessoa que amava. Aí ia sentir-me melhor e conseguiria voltar ao doutoramento – ou então decidir que não era isso que eu queria e seguir com a vida. Depois achei que precisava mesmo de descansar um bocadinho de tudo, e decidi deixar passar um mês. Depois o verão. Depois veio o outono e o inverno e eu fui piorando porque era o tempo mau, do frio e da chuva, e com menos luz solar. E eu não estava assim tão mal. Ainda conseguia sair de vez em quando e divertir-me um bocadinho.

As dúvidas multiplicavam-se. Constantemente. Sobre tudo. A falta de confiança passava para outros campos da minha vida. A auto-estima descia a pique, a partir dum sítio que já não era bom. Cantar deixou de ser uma coisa boa, para ser mais uma fonte de angústia e inseguranças. Uma péssima dona, que não dá a atenção e o carinho que a cadela merece. A relação que eu tanto quis tornou-se uma fonte de angústia, de ansiedade, de falta. A relação não me ia salvar. O verão não me ia salvar. A música não me ia salvar. Pouco a pouco fui percebendo que tudo servia para que eu piorasse. Tudo me fazia mal, por uma ou outra razão.

Em Março, a primeira vez que fui ao centro de saúde, deram-me ferro, que era tudo o que eu precisava. A segunda vez, já em Maio, não consegui parar de chorar durante toda a consulta, que a falta de força me estava a consumir e a impedir de sair de casa e de fazer coisas. Mais ferro, sob a promessa de ver uma psiquiatra brevemente, pois a médica não achou que fosse só uma anemia. E também assim, entre consultas e exames e mais consultas, (e não ir a uma psiquiatra porque o dinheiro não chega, e muito estigma, e muita culpa, e me recuso a pedir ajuda à minha mãe porque vai ficar preocupada comigo) o meu bem estar foi sendo adiado.

Quando me apercebi chorava todos os dias. E a vida foi-se continuando a desmoronar à minha volta – e cada vez mais e cada vez mais intensamente; e eu com cada vez menos coisas a que me agarrar. E quando havia alguma coisa, rapidamente se desvanecia. De repente apercebi-me que estava a acontecer dias inteiros em que mal saía da cama. Dias inteiros em que só saía de casa para passear a cadela. Adoeci frequentemente: ouvidos inflamados, costas inflamadas, gripes ou garganta inflamada. Acentuaram-se os problemas de estômago, as enchaquecas mais regulares, dores de costas insuportáveis, dificuldades para adormecer, crises de ansiedade.

Achei que tinha tomado uma decisão: desistir do doutoramento. E comecei a procurar emprego. Estou a candidatar-me a empregos desde Novembro. Recebi 3 respostas, fui a 1 entrevista. Não consegui emprego até agora. Cada vez pior com isto também, resolvi concorrer a uma conferência e aceitar um convite para participar num seminário (a última vez que participei num evento académico foi em Maio de 2016) e estabeleci isso como objectivo. Vou continuar pelo menos até estes eventos. E entretanto continuo a busca por emprego.

[Tenho que procurar objectivos senão fico pior.]

“Estás sempre tão bem disposta! Como é que consegues?”

“Estás sempre triste e a chorar. Nunca acontece nada de divertido contigo.”

Duas frases que ouvi com 16h de intervalo. As duas me fazem sentir uma merda. Uma porque me faz sentir uma farsa. Outra porque me faz sentir um fardo. O problema é que a maior parte do tempo eu sou a segunda frase. Só sou a primeira quando estou em esforço. E não aguento muitas horas desse esforço exaustivo, e fico cheia de dores de tudo para suportar essas horas. E só quero chegar a casa onde posso estar à vontade, na cama ou no sofá.

Janeiro acaba hoje e em Janeiro ainda não tive nenhuma gripe. É bom. Em Janeiro passei 5 dias nos Açores e nesses 5 dias não tive dores de nada nem mal estar nenhum e consegui respirar e foram 5 dias sem chorar. Senti-me bem, segura, saudável e confiante. Voltei renovada. Durou dois dias. Voltou tudo. Não sei como consegui voltar hoje à BN. Não. Sei. Mas se calhar é sinal que estou a melhorar.

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epílogo

Depois chego a casa e descubro que saíram os resultados das bolsas da FCT. Eu não consegui bolsa. E agora? Mas eu queria receber bolsa? Se eu recebesse bolsa teria de voltar para Budapeste e terminar o doutoramento. E agora? Agora não tenho essa opção. E agora? Vou voltar à BN? Para quê?

E agora apercebo-me que estive 9 meses praticamente parada (no que ao doutoramento diz respeito) a receber bolsa para trabalhar. 9 meses. É quase um ano. Que mesmo que queira acabar o doutoramento, agora é tarefa impossível. E a maior pergunta continua a ser: eu quero acabar o doutoramento?

E sei que o mundo (e eu) tem mais coisas em que pensar, mas estou orgulhosa de finalmente ter conseguido voltar à BN.

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One comment on “nove meses

  1. Leny
    14/02/2017

    Gostei das matérias. O quiropraxista indicou um colchão kenko patto anti-inflamatório mas afirmou que não pode ser muito firme. Alguém aqui já viu esse colchão da kenko patto que apareceu na Ana Maria Braga? http://kenkotop.com.br

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This entry was posted on 31/01/2017 by in PT, Sem categoria.
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