MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

O ânus infantil

A infância não é um estágio pré-político; antes pelo contrário, é um momento em que os aparatos biopolíticos operam sobre o corpo da forma mais despótica e silenciosa.


Tradução de um segmento de Terror Anal, o prefácio de Paul B. Preciado ao livro O Desejo Homossexual, de Guy Hocquenghem. O texto que se segue é do subcapítulo Educastração Anal – Infância, Masturbação e Escrita.


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Em 1974, dois anos depois de aparecer O Desejo Homossexual, René Schérer, amigo e amante de Guy Hocquenghem, publica Emile Perverti, sem dúvida um dos textos mais radicais e controversos do pós-estruturalismo francês. O sujeito ‘criança’ nos textos de Schérer é submetido ao mesmo processo de desconstrução a que tinham sido expostos os conglomerados políticos ‘mulher’ (Simone de Beauvoir) e ‘homossexual’ (Hocquenghem). A criança surge aqui enquanto artefacto biopoliticamente construído que permite a produção e normalização do adulto. Simone de Beauvoir havia afirmado que não se nasce mulher, e de forma ainda mais radical poderíamos afirmar com Schérer que “não se nasce criança.” [enfant] Para Schérer, Hocquenghem e os activistas da FHAR [Frente Homossexual de Acção Revolucionária] o sistema educativo é o dispositivo específico que produz a criança, através de uma operação política singular: a dessexualização do corpo infantil e a desqualificação dos seus afectos.

A infância não é um estágio pré-político; antes pelo contrário, é um momento em que os aparatos biopolíticos operam sobre o corpo da forma mais despótica e silenciosa. O objectivo primeiro da tarefa educativa é a privatização do ânus (controlo do esfíncter), levando a cabo o desenho/design sexopolítico do corpo no qual certas zonas são radicalmente excluídas da economia libidinal. Depois vem a repressão da masturbação, a aprendizagem da escrita e da leitura, e a inserção na ‘máquina heterossexual.’ A repressão da masturbação, que se estende desde o século XVII até à actualidade, teria por objectivo livrar a criança de um perigo anterior a qualquer relação social, de um perigo no qual o seu próprio corpo, afectos e imaginação são os seus piores inimigos, com a finalidade de inserir as suas energias libidinais no circuito de produção e reprodução do capital.

(…)

Nas instituições educativas e na família, esta dessexualização toma a forma específica de uma repressão da homossexualidade. Examinando as normas que regulam o sistema educativo francês, a FHAR afirma que “a pedagogia é uma disciplina heteronormativa” destinada à transformação do corpo em sujeito heterossexual. Mas o desejo homossexual não é completamente reprimido mas antes vê-se deslocado, ao mesmo tempo substituído e encoberto, pelo estabelecimento de uma série de relações homoeróticas de camaradagem que serão, do ponto de vista da crítica feminista de Françoise d’Eaubonne ou de Delphy, a base da rejeição simultânea da feminilidade e da passividade. Encerrar o ânus é desfeminizar o corpo. É esse o regime genitopolítico a que d’Eaubonne chamará falocrático. Não é uma questão de os homens terem pénis e as mulheres não; é que os homens fingem não ter ânus. O problema não advém de uma suposta inveja do pénis por parte dos corpos denominados ‘mulheres,’ mas da negação do ânus dos corpos pensados como ‘masculinos.’ Para aprender, e para ensinar (a ser heterossexual), é portanto necessário encerrar o ânus, evitar a passividade. A relação de aprendizagem deve ser uma relação de transferência do saber viril.

 

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4 comments on “O ânus infantil

  1. iko
    16/03/2017

    Uma metáfora grita por este texto em inglês – “A Foucauldian deconstruction of child-rearing”.
    Agora não sei se encerrar o ânus será desfeminizar o corpo. Sempre assumi que as mulheres também andam com o cu apertado, não se lhes ouvem muitos peidos escapar.

    “(…) com a finalidade de inserir as suas energias libidinais no circuito de produção e reprodução do capital.”

    Não é este argumento suficiente para justificar uma completa funcionalização da heteronormatividade?
    Parece-me sugerido no texto que exista um imperativo natural para prazer anal, mas pela mesma linha podes complicar este prazer com o instinto de muitos animais de evitar a sua merda.
    Não vamos fingir que não uma há uma forte ligação cu-cócó.

    bj 🙂

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  2. pfeijó
    16/03/2017

    yey, um comentário interessante neste blog!

    -> “Agora não sei se encerrar o ânus será desfeminizar o corpo. Sempre assumi que as mulheres também andam com o cu apertado, não se lhes ouvem muitos peidos escapar.”

    Há aqui uma nuance terminológica importante. O Preciado, seguindo um bocado a perspectiva proposta pelo Halberstam no Female Masculinities, não toma o ser mulher como sinónimo de feminino. São coisas que estão em constante relação – uma construindo-se a partir da outra – mas que não são sinónimos. Isto é interessante, em primeiro lugar, porque te permite de falar de homens femininos e mulheres masculinas sem que de alguma forma estas percam o estatuto da sua categoria sexual.
    Aqui é interessante pensar como o prazer anal está longe de querer dizer ser mulher. O exemplo dos peidos como relação com o anal é bom; mas mais grosso modo tb não é como se a imagem da mulher ideal passasse por gostar de, a expressão é bruta mas encaixa bem, ‘levar no cu.’ Mas ainda assim, a exploração do prazer anal é feminização – > um corpo definido pelo seu falo torna-se de repente receptáculo, ‘passivo’.
    (mesmo que uma pessoa não aceite estes termos como equivalentes, a verdade é que os têm sido como arquétipos sociais dos ultimos valentes séculos…)

    – > “Não é este argumento suficiente para justificar uma completa funcionalização da heteronormatividade?”

    É sim, well noticed! e é o argumento que ele desenvolve num livro inteiro, O Testo Junkie (ainda não traduzido, claro).

    – > “Parece-me sugerido no texto que exista um imperativo natural para prazer anal, mas pela mesma linha podes complicar este prazer com o instinto de muitos animais de evitar a sua merda.
    Não vamos fingir que não uma há uma forte ligação cu-cócó.”

    Um dos grandes problemas do Preciado, para mim, é o seu postivismo sexual anal. Primeiro porque assume a universalidade do prazer anal, sem o pensar dentro das mesmas relações de poder fluídas que conhecemos hoje. Isto está super patente no Manifesto Contrassexual (que a gente já traduziu pra pt com as edições Unipop!). Há este texto brutal do LIES que estou para traduzir há séculos para aqui, ams ainda não tive tempo http://www.liesjournal.net/volume1-02-undoingsex.html

    E depois há a questão do cu-cocó. Não é que ele esteja ausente no Preciado (‘Mijar/cagar’ e ‘Pornotopia’) mas é sempre assim uma relação tangencial mesmo, sem puxar à sua materialidade. Tu falas do instinto de evitar a merda; e eu pergunto-me sobre a própria relação sexual com a merda: os prazeres que algumas tiram dela, o prazer de cagar, o repensar da linha freudiana de interpretação, etc… O micropoder do cagalhão, no fundo.

    beijos! (gregos)

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    • iko
      16/03/2017

      Gotcha! Merci pour la réponse.

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  3. Pingback: resposta às minhas críticas – divagações de uma académica prepotente | MODO DE VOLAR

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This entry was posted on 14/03/2017 by in Sem categoria.
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