MODO DE VOLAR

And He was asking him, "What is your name?" And he said to Him, "My name is Multitude; for we are many."

resposta às minhas críticas – divagações de uma académica prepotente

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(ai sempre quis escrever um texto com este título ❤ )

À conta da publicação do meu texto no Expresso apanhei, esta semana, com um exército de trolls a destilar ódio. Nada surpreendente: uma pessoa já sabe que expôr-se é dar o flanco. Agora o que me surpreendeu, sim, foi que o discurso de ódio tenha vindo mais de certo pessoal de esquerda que da direita. Uma surpresa ingénua: só um enfezado orgulho esquerdista pode permitir fazer vista grossa aos grupos de esquerda de um conservadorismo violento. Ainda pra mais quando este se alia a uma cultura de fazedoras-de-opinião para as quais a fobadísse pela indignação as impermeabiliza a um único pingo de pensamento crítico.
Deixo abaixo três curtas notas sobre as escassas questões interessantes que apareceram pelo meio dos insultos. Não é pras do Orgulho da Ética de Esquerda – a essas só lhes posso dizer o que as bruxas d’há 500 anos já sabiam: se aprende mais a lamber cus de monstros-demónios que a discutir no Vaticano. Não, deixo-as para o pessoal que tem vontade de continuar a pensar, viver e sentir estes assuntos sem a chicotada do ejaculgamento precoce. E fica com elas um agradecimento ao pessoal que ainda tem a pachorra para discutir c’as idiotas transfóbicas – não é preciso nomear, sabeis quem sois ❤ É verdade o que dizem: Ninguém pode parar um Exército de Amantes.
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1 pedofilia
Uma acusação que inevitavelmente tinha de surgir (mas que eu pensei que viesse do Partido Pró-Vida e não de um site memes de esquerda) era a da defesa da pedofilia. Lendo os textos é preciso ser-se muito mal intencionada para ver neles uma apologia da pedofilia. Se falo sobre a necessidade de reconhecer sexo e desejo nas crianças não é obviamente para podermos abusar delas!, é que ignorar estas vertentes nas suas-nossas vivências é apostar em resolver um problema de uma esfera moral, mais abstracta, enquanto se faz vista grossa às dificuldades actuais que a criança está de facto a passar. E não ouvir o que uma criança tem para dizer, os desejos que uma criança pode ter, é torná-la ainda mais desprovida de potência do que já o foi pelo próprio abuso.
Suponho que em termos de discurso político a coisa também pode ser pensada de duas formas. Há quem acha que pedófilos são simplesmente seres aberrantes, inumanos, que nasceram deformados e precisam de ser castrados quimicamente. Quem partilha desta opinião terá dificuldade em lidar com os casos em que crianças abusadas se tornam pedófilas – vai-se num esticão da ‘inocência’ ao ‘não-merece-viver’ – ou ainda dos casos de pessoas que não fazem mal a *ninguém* e que vivem numa angústia e solidão brutais por terem desejos pedófilos.
A segunda opção é, não estando de *forma alguma* a tentar validar ou moralizar o abuso de crianças, reconhecer como a pedofilia qua pedofilia existe também inserida num contexto social e que só nesse contexto pode ser compreendida. Ironicamente as conclusões a que esta perspectiva leva são a de uma certa concordância entre o discurso pedófilio e o exército de moralistas ultrajados que se lhe opõe: aquilo que com frequência permite a adultos abusar sexualmente de crianças é o mesmo que este exército defende de alma e coração: as despromoção total de desejo, de sexo, de vontade, de forma a que a criança fica ultimately reduzida a um objecto para uso do adulto – no primeiro caso enquanto objecto sexual, no segundo enquanto estátua de cristal. Esta conclusão não tem nada a ver com dizer que ambos os grupos são ‘igualmente maus’; mas diz, isso sim, que partilham de uma noção que é importante entender a fundo. Esta noção identificou-a Schérer, Hocquenghem e as activistas da Frente Homossexual de Acção Revolucionária, e mais recentemente veio de volta à superfície com Preciado: “A infância não é um estágio pré-político; antes pelo contrário, é um momento em que os aparatos biopolíticos operam sobre o corpo da forma mais despótica e silenciosa.(…) A criança é um dispositivo biopolítico para a construção do adulto.”
O assunto é complicado, e eu fico dividida entre a frustração da censura de não poder falar destas coisas e a necessidade de uma cautela porque não quero que ninguém leia no que escrevo uma justificação para o abuso. Mas porra, não quero deixar de falar só porque já oiço no background as Isildas Pegado deste mundo a fumegar pelas orelhas. Quem veio condenar a entrevista da Christiana com acusações de defesa de pedofilia quis esquecer ainda um último aspecto fundamental dos textos: é que são uma narrativa na primeira pessoa, são um discurso autobiográfico. E se felizmente nunca fui abusada enquanto criança, passei de facto por uma situação de abuso que se apoiava bastante numa diferença etária e de maturidade (o que aliás também está no texto). É uma experiência que não desejo a ninguém e gostava de ver extinta do mundo. A acusação é triplamente asquerosa: pela sua falsidade, pela leviandade com que mobiliza um abuso tão violento, e pelo desrespeito que tem face a quem já passou por uma situação de abuso.
queerarmy
2 feminismo radical
É um erro aborrecido utilizar ‘feminismo radical’* como sinónimo de ofensa. O feminismo radical trouxe uma oposição forte e frontal à noção de mulher, à estrutura patriarcal e, reconheçamo-lo ou não hoje, à essencialização do binarismo de género. À conta da sua história e genealogia anticapitalista, o feminismo radical propôs uma análise estrutural capaz de pensar as relações entre género e classe, e mesmo o género *enquanto classe*. Ainda hoje avança um contraponto importante a uma lógica identitária superficial e liberal cheia de limitações. E talvez o mais importante: o feminismo radical mobilizou milhares de mulheres em experiências radicais na não-necessidade de homens, e levou, no seu auge, a vivência “do pessoal enquanto político” a uma intensidade poucas vezes vista. O feminismo radical, com todas as críticas que se lhe apresente – e são *muitas* – tem de estar presente no nosso pensamento e discussão.
Diferentes são as Trans-Exclusionary Radical Feminists, vulgo TERFs – uma mobilização contemporânea do feminismo radical que exclui pessoas trans da sua luta.
Essas, eu estimo bem que sa fodam.
*não há um feminismo radical, né, há vários. mas o termo foi cunhado por oposição a um feminismo reformista da própria segunda vaga:
“Radical feminism is a perspective within feminism that calls for a radical reordering of society in which male supremacy is eliminated in all social and economic contexts. (…)
Early radical feminism, arising within second-wave feminism in the 1960s,[2] typically viewed patriarchy as a “transhistorical phenomenon”[3] prior to or deeper than other sources of oppression, “not only the oldest and most universal form of domination but the primary form”[4] and the model for all others.[4] Later politics derived from radical feminism ranged from cultural feminism[1] to more syncretic politics that placed issues of class, economics, etc. on a par with patriarchy as sources of oppression.” (na Wiki)
 
3 otherkin
Otherkin – pessoas que se identificam como não sendo humanas. Terei todo o gosto em falar sobre isto. Quando houver alguma coisa para falar. Enquanto a crítica for só ‘isso é estúpido’ terei tanto prazer em trocar comentários ofensivos como tenho em apanhar os cagalhões das minhas cadelas.
A minha primeira reacção às identidades otherkin também foi a de espanto e rejeição. Depois lembrei-me que foi a mesma reacção que pessoas cis tiveram a trans, heteros a homos, corpos “capazes” ao discurso da positividade dos movimentos de “deficientes”, fodedores baunilha ao BDSM, etc. etc.
Não estou a pedir que se concorde com nada. Mas se se quer discução crítica sobre o tema o mínimo é informar-se sobre ele. Desculpem lá mas com a merda com que tenho apanhado mereço um momento de nariz empinado: o pessoal que anda aí a descartar o tema com a arrogância de um vasco pulido valente não me pode realmente exigir que me dê ao debate sem sequer se dar ao trabalho de ler um bocado sobre o tópico. Por isso abaixo ficam dois texto.
O primeiro é curto; publicado no site de cambridge dá umas noções gerais sobre a coisa – mas muito gerais. O segundo, que acho que efectivamente vale a pena ler, é um texto de 5000 palavras que escrevi o ano passado e que encompassa a história mais exaustiva feita até hoje sobre otherkin e a sua relação com licantropia; já teve mais de 400 visualizações no academia edu e é capaz de dar algumas luzes. Fãs do ultraje e da opinião: vão ler e depois a gente fala. *snap*
Deixo uma frase linda de Pat Califia, escritorx de porno queer, no livro Pomosexuals:
“I’m never sure if I have gender dysphoria or species dysphoria. I often try to explain that I’m really a starfish trapped in a human body and I’m very new to your planet.”
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This entry was posted on 22/04/2017 by in Sem categoria.
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